O Vento


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A poesia do vento não pode ser vazia. Ela deve ser discreta e dizer apenas o que o vento é. O vento é o sopro de consciência que vem da imensidão do espaço a procura de repouso. Ele é a simplicidade de um suspiro, com a emoção de uma lágrima. Silenciosa. Apagada.
O vento também é fúria e braveza. A corrigir os erros de quem não soube ser. Ele percorre cada canto dos mais baixos - escondidos, perdidos - recantos. Mas nunca se vai. Jamais fica. É uma corrente que perpassa nossos olhos e nos carrega pela vida. O vento não tem solidão. Quando está só, levanta poeira e a leva com ele.
Queria ser, um dia, como o vento. Para passar por entre seus cabelos e cantar aos teus ouvidos todo o silêncio que me preenche nestes momentos de insensatez. Poderia até acompanhar os teus passos e, depois, apagá-los. Levemente. Vagarosamente. Sentindo o toque de seus pés.
Vou ficar aqui por uns instantes, a espera que algum vento me traga você. Na memória. Quem sabe esse mesmo vento varra para bem longe tudo aquilo que não houve e nos faça ser novos. A cada dia. Quando, logo ao raiar, possamos sentir que o vento não nos abandonou. Talvez, até constatarmos que estamos sós, juntos com o vento e a poeira que não se foram.

Admilson Veloso

Singular


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A linha que percorre o teu corpo é breve, como o pontilhar dos passos na imensidão da praia. É singular, porquê a linha te contorna, mas não te prende. Ela é tênue e, ao mesmo tempo, irreverente, pois sai dos limites que te cercam.
A linearidade que a envolve não a domina. A beleza com a qual te desenharam já não pode ser copiada. É singular. Tão singular quanto minhas palavras ao lado de suas linhas.
Suas linhas que me conduzem a este ponto, pontilhado, partilhado, múltiplo. Perco-me na singularidade de sua imagem. Encontro-me nas lembranças de suas curvas. Iludo-me e depois recaio em consciência. Para mais tarde sonhar com os retângulos, quadrados, e todos os desenhos e figuras geométricas que tentam imitar a sua beleza. Tão singular, tão plural. Isso me encanta.

Admilson Veloso

Verdades Sujas

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... O vaso estava imundo, a privada lotada de degetos que não foram aproveitados.
Cheio/cheiro de idéias perdidas, liberadas durante a descarga feita pelo sistema, que corrompe e seleciona.
Quantos bons pedaços dentro daquele ralo, a escorrer por entre os canos, do esgoto cultural.
O que farão com tudo isso? Será que vão tratar em um reservatório intelectual para que possamos beber e comer em uma festa hipócrita ou consumir em formato de novas mídias?
Isso me causa vômitos. Não vômitos de cultura ou de arte, mas um desejo de jorrar com toda a impugnância um monte de merda sobre a cabeça desses anódinos putrificados...


Admilson Veloso

Qualquer Loucura

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Senhoras e Senhores,
Um momento de atenção, por favor.

Hoje eu senti um forte desejo de fazer algo diferente. Tive a vontade de sentar aqui, neste lugar onde comecei a escrever ainda há pouco, e dizer por esta mensagem alguma coisa que nunca tinha dito. Olhei para o lado, para o alto, observei o casal que namorava logo ali, no banquinho de lá, li o texto do maço de cigarro que alguém jogou no chão, mas nada me inspirou.
Nada me inspirou, até o momento em que as formigas subiram pelas minhas pernas e eu precisei sair correndo. Isso não é engraçado, nem quero ser. Eu só queria mesmo escrever algo de incomum, para mostrar meu lado Real. Contudo, só consegui rabiscar estas palavras, que não surpreendem, não emocionam e nem falam nada, mas dizem muito de mim.
Algum dia desses vou fazer qualquer loucura, como escrever um palavrão e mandar alguém se danar. Por enquanto, Senhoras e Senhores, fico com a sensatez e o pudor que as tuas vidas antiquadas e mentirosas exigem. Mas esperem até eu ter coragem de lhes enfiar a caneta (no olho) e lhes fazer enxergar as formigas que vossas senhorias pisam (as mesmas que mordem os pés?).

Admilson Veloso

Confissão

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Parei,
De correr atrás
Do futuro.
Estagnei
Todos os meus
Sonhos.
Chorei
Por você e seus
Fracassos.

Acreditei
No nada auspício.
Que me levem
Para longe,
Hospício!?
Mas deixem-me
Dizer mais uma vez
Te amo!

Admilson Veloso

Ser Poeta

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Sabe esta confusão de quem ama sem pedir licença (?)...
Eu só queria estar ao teu lado e mais uma vez dizer que tudo um dia será melhor, mesmo não acreditando nessa promessa. Mas, quem sabe assim poderíamos sonhar juntos e viver esses instantes eternos que acabam em solidão.
Queria também que estas palavras, como um punhal, atravessasse teu coração e lhe fizesse sentir a dor da poesia, sentir como queima o peito de um poeta quando seus lábios são incapazes de dizer palavras belas e o que lhe resta é escrever.
É na folha, aonde a tinta vai deixando marcas, que o artista das letras faz imprimir as cicatrizes de seu coração.
Não sei por que, mas tenho certa tendência a melancolia. Falo de sonhos e solidão. Parece que todas as lágrimas que nunca caíram de meus olhos estão presas ao lápis e ao papel. É no soluço da vírgula que deixo transparecer muitas saudades, é com este alfabeto rápido que grito palavras mudas e espero que elas alcancem o sol e o mar.
Espero, até que um dia, quando não conseguir mais ser poeta, eu me perca pelo espaço, ou então, me sufoque com tantos sonhos, com tantas flores, com tantas palavras em meu coração.

Admilson Veloso

A Palavra


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http://mgbon.blogspot.com


A palavra

Já não quero dicionários
consultados em vão.
Quero só a palavra
que nunca estará neles
nem se pode inventar.

Que resumiria o mundo
e o substituiria.

Mais sol do que o sol,
dentro da qual vivêssemos
todos em comunhão,
mudos,
saboreando-a.

Carlos Drummond de Andrade

Alucinação

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O sonho se passava em um lugar estranho, um pouco escuro e úmido, com um cheiro de móveis velhos e urina de rato. Carlos tentava fugir, mas era como se as paredes viessem de encontro a ele e quisessem lhe esmagar. Sua respiração ficava, a cada segundo, mais ofegante e o suor molhava seu rosto. O coração disparou. Ele queria escalar as paredes e sair daquele lugar. De repente, tudo começou a girar e o fio de luz que vinha do alto o fez perder parte da visão. Carlos só conseguia enxergar os vultos que o cercavam, como lobos ferozes a espreitar a ovelha. O coração bateu mais acelerado ainda e tudo o que ele conseguiu fazer foi soltar um forte grito.
A cama estava molhada de suor e o jovem ardia em febre. Não entendia o que significava o sonho que acabara de ter. Talvez fosse só uma alucinação causada pelo mal estar, mas as lembranças ficaram em sua memória.
Lá fora, a chuva se mostrava preguiçosa, a pingar em chuviscos que deixavam as ruas e os telhados luminosos. O céu estava coberto de nuvens cinza e o ar respirava um gosto de não-sei-o-quê. Pela demonstração de fúria da natureza, evidenciada na tempestade que varou a noite, dava para se ter uma idéia de que o verão não seria dos mais brandos.
A febre, a chuva e a baixa luz, alimentada apenas pela pouca claridade que vinha de fora do quarto, davam aquela cena uma monotonia e solidão que transbordavam os limites do corpo de Carlos.
Por mais de dez minutos ele ficou a olhar para o teto, imóvel, como se ainda refletisse o que sonhara instantes antes de acordar. Quando era criança, certa vez ouvira alguém falar que todo sonho tem um significado. Mas o que queria dizer aquelas coisas estranhas de seu pesadelo? Bobagem, pensou. Tudo era apenas reflexo da febre que teve por causa do resfriado. Na verdade, ele queria acreditar nisso para afastar as lembranças.
Girando a cabeça, ele procurou sobre a mesinha, que ficava ao lado da cama, o relógio para verificar as horas. Pela claridade que se via pela janela, mesmo embaçada pelas nuvens, dava para perceber que o dia já havia começado. Revirou entre os livros, papéis e outras bagunças e encontrou o bendito relógio. Eram sete horas. Não sabia o que significava ser sete horas.
O dia é domingo e ele não vai trabalhar. Por isso, pode dormir até mais tarde. Seu corpo também não se mostra com vontade para sair da cama. Então, Carlos simplesmente se abandona sobre o lençol e volta a dormir.
Se alguém o visse ali, não desconfiaria que acabara de ter um sonho tão pesado. Ele vai dormir muito e, desta vez, não sonhará. Também não voltará a sair da cama, pelo menos não antes do serviço funeral chegar. Talvez alguém chore por ele e lhe acenda uma vela em homenagem. Mas Carlos não é místico e o seu grande sonho, agora prestes a se realizar, sempre foi morrer em silêncio. Como este silêncio que se faz no mundo, abalado somente pela leve inquietude das lágrimas das nuvens. Se tivesse pensado um pouco mais, o jovem defunto teria entendido porque choveu tanto: alguém está a chorar por ele...

Admilson Veloso