“Se não levarmos a poesia e a beleza conosco, é inútil percorrermos o mundo. Em nenhum lugar as encontraremos.” Ralph Waldo Emerson
Em resposta a quem diz de minha melancolia poética, resolvi escrever algo sobre a Alegria. Saibam, Senhores e Senhoras: Poetas, assim mesmo com a primeira letra maiúscula, são alegres na essência, não nas palavras. Nossa felicidade não precisa de outdoor ou jingle vibrantes para transparecer-se. Quiçá, se dependesse de opiniões alheias para ser escrita não seria de todo uma Alegria. O que nós temos no peito, na mente, nos sonhos, é Poesia. O riso é fruto de uma vida, não é algo para ser colocado no papel. Se fosse, deixaríamos de ser poetas para sermos humoristas, palhaços ou animadores - com todo o meu respeito a tais ocupações. Assim, digo mais, não procure nos textos dos poetas motivos para tornar sua vida feliz. Isso deve vir de dentro, não buscado em rabiscos alheios. Se queres isso, consulte seu analista (o caso deve ser sério), não a minha poesia. Falo ainda algo que pode te constranger: sua infelicidade me co-move a escrever ainda mais e a ser feliz, rindo à toa debaixo da chuva por suas desgraças. Pronto. Agora, atire a pedra.
Franzino, quase esquelético, com os cabelos ralos amarelo-avermelhados a cobrir lhe parte do rosto, Joel corria pelo terreiro do quintal que o pai comprara fazia apenas dois meses. Quintal pequeno, de metros medidos para caber a casinha, com dois quartos e uma sala-cozinha. Nem banheiro havia por ali. As necessidades mais urgentes eram feitas no buraco de um cercadinho de lona, no canto do terreno. Mas dessas coisas de pobreza ele não sabia, apesar de sentir fome e solidão em seu mundinho incompleto. Três anos faziam desde que viera ao mundo, por arte da natureza, já que a mãe morrera durante o parto. Joel foi amamentado por poucos meses - que poderiam ser contados nos dedos de uma das mãos - por uma tia-parente-distante conhecida do pai.
Joel ainda não falava, embora a idade avançasse. Sabia apenas rir e chorar. É que ninguém lhe ensinou essa arte. Nem o pai, que após a morte da mãe tinha ficado daquele jeito, meio confuso das idéias (que nunca foram muito boas). Trabalhava o dia inteiro pra se distrair e pra colocar um pouco de comida nas panelas, velhas e encarvoadas pelo fogão a lenha do canto da sala-cozinha. O garotinho também não sabia dessas coisas de gente grande, do nascer e morrer, com um tempo entre as duas ações que se chama viver. Ele queria mesmo era pegar as nuvens lá do alto, de tão macias em sua exibição matinal.
Durante todos esses dias, o pequeno - de braços finos e pernas fracas - ficava em casa com a irmã, única companhia de brincadeiras, mas meia dúzia de anos mais velha. Joice era calada, talvez porquê nunca aprendera mesmo muitas palavras. Aos nove anos de idade não tinha ido à escola pra aprender os modos da cidade, pois precisava cuidar do irmão pro pai trabalhar. Também não sentia falta dos estudos. O que ela sentia falta era da mãe, carinhosa, um pouco bonita, que sempre contava histórias quando ela era pequena. Joice sabia que era seu dever cuidar de Joel e zelar pelas coisas de casa, preparar o arroz pra quando o pai chegar cansado comer e dormir tranqüilo. Essa era a rotina de Joel e Joice. Rotina sem muitas novidades, pelo óbvio da palavra. Uma vida de silêncio que se passava dentro daquele cercadinho de madeira já depois da cidade, num lugar meio roça, onde ainda se ouvia alguns pássaros cantarem de vez em quando.
Essa era uma das maiores belezas que Joice tinha conhecido. O terreno do cercadinho de madeira era como um sonho. Pelo menos diante do barracão de lona onde moravam até pouco tempo e que acabou destruído pelas últimas chuvas. Ela se lembra da noite em que aconteceu o incidente. Joice e Joel estavam acordados, um pouco sonolentos por causa do adiantado da noite. O pai não tinha dormido de forma alguma. Esse era um hábito dos antigos dele. Desde a época da morte da mãe que, à noite, ele ficava assim, silencioso e tristonho. Tristeza profunda de se perceber pelos olhos. A chuva estava forte e isso ajudava a não deixar o pai pregar os olhos. Algumas horas da água caindo do céu e foi possível perceber a estrutura de barro-batido do chão úmido do casebre se sacudir. Mais que de repente as duas crianças estavam no colo do pai, que saiu correndo, sem tempo pra salvar nada. Por essas coisas lá do barraco de lona é que Joice acha o terreno do cercado um sonho. Pelo menos lá a terra não vai tremer em noite de chuva e não tem tanta goteira pra pingar na cara quando a gente quer mesmo é dormir.
Joel corre pelo terreno todos os dias. É a diversão mais divertida que ele encontrou. Lá naquelas bandas não há muita coisa pra fazer. Ao menos se ele pudesse sair com o pai, mas não podendo isso era suficiente. Quando não se conhece o todo qualquer parte satisfaz. Era de correria em correria, atrás das borboletas do quintal, que ele se comprazia em viver. Joice ficava mais era olhando aquilo, pois não tinha disposição de sair debaixo do sol quente pra espantar borboletas. Por momentos foram felizes na simplicidade e inocência de seus atos. Brincar é uma das coisas mais belas do mundo. Brincar de ser gente feliz, mesmo diante dessas tristezas todas.
Joice e Joel só não esperavam pelo que ia acontecer mais tarde, antes mesmo do pai chegar de sua labuta. Depois de tanto correr atrás das lagartas de azas, o menino de poucos quilos ficou sem ar. Não esse ar que nós temos, mas o ar de dentro. Caiu na porta, quando tentava correr pra perto da irmã com os olhos arregalados. Não teve forças pra chorar, apenas caiu e desmaiou. A mocinha também não soube o que fazer, nem mesmo chorar, somente arregalou os olhos tanto quanto os do irmão segundos antes e abraçou-se a ele. Joice teve medo de Joel não acordar nunca mais, como a mãe. Com o olhar fixo no pequeno, a espera de alguma reação, ela também dormiu. Uma cena que merecia de ter registro num daqueles filmes que passam no cinema e faz as pessoas se emocionarem. Infelizmente, não houve registro cinematográfico. O que aconteceu foi só isso.
Joel estava fraco demais por falta de vitaminas. Ele ficaria ainda mais fraco e doentio nas semanas seguintes, antes de dormir pra sempre, como a mãe. Ele, que gostava das borboletas, seria enterrado no quintal, com uma flor plantada sobre a cova pra enfeitar seu sono. Joice não teria mais sua companhia. A mocinha viveria uma vida de solidão em sua casinha de sonho dentro do cercadinho de madeira. Mas um dia isso haveria de acabar. O pai, mais confuso do que nunca e num ato de desespero, resolveu dar um fim àquela tristeza toda que se instalava em seu espaço. Todos dormiriam pra sempre, como num sonho distante...
Estava estampado na manchete do jornal o fim da história de João da Silva, 21 anos, ou da suposta história: “traficante morto em acerto de contas”. Ele, que teria sido abortado pela mãe, não fosse a imbecil ter tomado o remédio errado. Ele, que aos seis anos foi estuprado pelo vizinho e ameaçado caso contasse para alguém sobre o fato, ganhou notoriedade naquela primeira página que lhe dedicou letras garrafais. Logo ele, que aos nove perdeu o pai, morto por engano pela polícia. Um ano depois perdeu a mãe, levada pelo câncer de útero em conseqüência da tentativa de aborto falha da qual nasceu João e de outras três que deram certo, das quais nasceriam outros tantos Joãos.
Filho único - algo raro para as famílias daquela região - foi largado no orfanato, de onde fugiu pouco tempo depois para viver nas ruas. Antes mesmo dos doze anos cheirou cola, experimentou crack e fumou um baseado. Da primeira experiência com as drogas, naquela noite fria de junho, ele ainda se lembra - ou se lembraria se estivesse vivo. A cola fazia parte da rotina de quem vivia na rua, mas João nunca havia experimentado. Não até aquele inverno. Porém, a fome, o frio e o medo de dormir e nunca acordar falaram mais forte. A sobrevivência viria por meio daquela substância, que logo seria substituída por algo mais forte.
Mas tudo isso não é importante, pois o que a manchete do jornal dizia era que o “traficante foi morto por vingança” e esse é o fato. Esse é o fato que esconde a trajetória de João, que aos quinze anos comprou um revólver para se defender. Ao menos era como justificava para a própria consciência aquela aquisição arriscada. Ele, que sonhou um dia ser médico pra salvar vidas, agora teria o poder de tirá-las dos homens. A arma também ajudaria na labuta por comida e pelo dinheiro das drogas. De assalto em assalto os seus sonhos ficavam mais distantes. Contudo, ainda existiam. “Dr. João da Silva”, diria, talvez um dia, a placa de seu consultório em algum prédio do centro da cidade.
Aos dezesseis anos João já tinha em sua ficha criminal uma larga experiência. Não sabia exatamente quantos atos ilegais cometeu. Sabia apenas de três assassinatos. Não foram planejados, pois ele não era de sangue frio. Foi uma necessidade. “Matei pra me defender”, justificou com o delegado quando foi detido pela primeira vez, aos dezessete anos. Não precisava ter se justificado, já que três meses após ser pego conseguiria fugir durante um motim na casa de detenção. João que sonhara com a medicina conseguiu ser um foragido da polícia. Ele que nem tinha culpa, que não teve chance, que não era dono de nenhum nome de peso.
No dia do seu aniversário de dezoito anos, quando finalmente alcançaria a maioridade, João da Silva também não tinha motivos para comemorar. Se fosse capturado pelos “ome”, não teria escapatória, seria cadeia. Naquela noite de aniversário não houve “parabéns pra você” e o jovem não ganhou presente algum. Mas teve uma sensação de liberdade jamais experimentada, principalmente depois de tragar o terceiro cigarro. Do alto do viaduto ele observava os carros a passarem pela avenida e os edifícios da cidade. A lua, do céu, iluminava seus olhos vermelhos e as lágrimas que por eles desciam. João da Silva chorou sem saber porque. Chorou, porquê era livre e não sabia voar.
João vivia a perambular pelas ruas, apesar de dormir quase sempre debaixo do mesmo viaduto. Aos vinte anos, graças a um assalto bem-sucedido com o apoio de um camarada – que infelizmente morreu na troca de tiros com os policiais – conseguiu uma grana boa. Dava até pra ter um barraco de vila. Mas João tinha amor demais pelo seu viaduto, que há quase dez anos o abrigava das chuvas de verão e de qualquer outra intempérie, para deixá-lo a revelia. O que iria fazer mesmo com o dinheiro era montar seu próprio negócio: comprar e revender “material” de primeira qualidade. Logo no primeiro carregamento, que estocou em um pequeno depósito ali perto, foi praticamente tudo o que tinha ganhado. O lucro viria com a revenda na zona sul, esperava.
No primeiro mês de trampo conseguiu ganhar alguns trocados, que gastou com coisas sem importância de relato. No segundo mês comprou mais, que negociou o pagamento em duas vezes: metade naquele momento e metade em quinze dias. Mas João não teve sorte, a polícia descobriu o seu depósito e levou todo o produto estocado. Ele, que nunca teve vocação pra economia, teria agora que negociar o pagamento da mercadoria perdida e poder continuar com o negócio. No encontro com os rapa dos quais comprava sentiu que estava numa furada. Eles deram uma semana para ele conseguir o pagamento. Era realmente encrenca. Descobriria isso com mais intensidade no fim de semana, quando os encontraria novamente. Ainda não tinha todo o dinheiro. Levaram o que conseguiu e lhe deram uma surra. Mais uma semana. Esse era o novo prazo para o aprendiz de traficante conseguir o restante da grana. Não conseguiu. Foi o seu erro.
No encontro do sábado de madrugada, João sentiu seu suor descer pelas costas quando levou o primeiro chute e caiu de joelhos. O estômago também teria sua dose de dor. O gosto do sangue veio à boca no momento em que ainda tentava dizer que, se dessem mais um prazo, arranjaria o dinheiro. Não teve tempo para falar, o soco no rosto lhe custou três dentes e, na seqüência, uma pancada na cabeça lhe tirou a consciência. Adormecia para não mais acordar. Pelo menos acabava ali o seu sofrimento.
A última imagem que veio à sua memória foi a da mãe e do pai - quando ainda era criança e queria ser médico - sentados numa sala apertada, sem piso e com goteiras no teto, a discutirem sobre educação. O pai dizia que aquilo era coisa de gente rica: “Homem precisa mesmo é de trabalho”, argumentava. Não sabia porque, mas naquele instante em que estava prestes a morrer, diante de pessoas que não sabiam de seu passado, de seus sonhos, de seus medos, ele sofreu e chorou em silencio algumas lágrimas já sem sentido. Levou dois tiros na cabeça, depois outros quatro no peito, dos quais um acertou o coração. Morreu descalço, sem roupa e sem dignidade. O pior mesmo era se soubesse que teria a foto estampada no jornal com a manchete: “traficante morto em acerto de contas”. Não era justo. Não com ele, João da Silva, que tudo o que fez na vida foi sonhar.
A rima perfeita está no toque, mais do que no som ou na imagem. Está na letra, antes da palavra ou estrofe. Está no particular que compõe cada coletivo. Está no Eu, no Você, no Nós.
A rima perfeita está no agora, mais do que no sempre ou no nunca. Está no silencio, antes da canção ou grito. Está na singularidade que compõe o plural. Está no olhar, no sentir, no viver.
A rima perfeita é desafinada, pois não carece de perfeição. É o caminho, não o destino. É a nota, não a composição. É o desejo que leva ao prazer.
A rima perfeita é o acaso, pois não precisa de planejamento. É a expectativa, não a comemoração. É o experimento, não o resultado. É o raio de luz que traz o dia.
A minha rima não é perfeita, Ela é desajeitada, triste, solitária. A minha rima caminha sem rumo. Ela está no mundo por acidente de percurso. Minha rima não existe, é invenção de um poeta - sonhador.
A alegria do reencontro está na ternura do abraço, na beleza do sorriso e na incandescência de um olhar. Nosso reencontro não teve nada disso. Não nos tocamos e nem ao menos nos vimos, mas foi o suficiente para que eu sentisse o aperto no peito, o fervor nos olhos e uma felicidade quase incontrolável. Tão lacônico nossos dizeres, que em poucos minutos, segundos – talvez – se passaram. Fiquei meio sem saber o que escrever, neste bate-papo instantâneo. Então, só consegui digitar: “E aí, como vai?” A expectativa por uma resposta nunca foi tão grande. Não pelo fato da resposta em si ter alguma importância, mas apenas por ser uma resposta sua, uma articulação de seus membros para me responder algo.
Não conseguia acreditar. Depois de quatro meses contando cada dia, com a esperança de te reencontrar nos nossos espaços, nos recantos dessa saudade, depois de tanta procura sem resultados, aconteceu. Simples assim: aconteceu. Mas, decepcionei-me. A intensidade não foi a mesma das outras épocas, nossas épocas. Apesar do desejo por mais um momento de diálogo, de um pra sempre, da permanência, algo já está diferente. E acho que é em mim. Alguma coisa mudou em meu coração e não sei dizer o quê. O quê?
Breve também foi o seu adeus. Desta vez, com um significado distinto. A despedida se resumiu em “agora tenho que ir”. Eu também disse apenas “tudo bem, vai lá, mas não some...” Na verdade, o que gostaria de ter dito seria “não vá, ainda te amo”. Minhas palavras não saíram, ficaram para uma próxima vez, para um próximo dia, para um próximo reencontro. O medo de dizer te amo me persegue, é quase um trauma. Não consigo dizer do Amor. Quem saiba, até mesmo, já não consiga amar de fato. Pode ser, a psicologia explica isso. Não sou psicólogo.
Fiquei aqui ainda por alguns instantes, a esperar o teu regresso – repentino - para me abraçar e dizer entre suspiros que me ama e que já não vai mais partir. Fiquei. Essa também pode ser uma espécie de trauma, a minha espera contínua por coisas que tenho plena convicção, são utopias. Minha vida é uma utopia. Por isso, ainda te espero, para mais um “olá, quem sabe, pode ser...”