O ano em que a primavera não floresceu



Tive medo de escrever à Catarina sobre o meu dilatado amor por suas flores no cabelo e seu cheiro de primavera. Indecisão por falta de conhecimento das reais intenções afetivas dela à minha pessoa. Menina faceira com cara de anjo e corpo de mulher que arrancou, por muitas estações seguidas, a minha volúpia em silêncio. Ternura em olhos artesanalmente fabricados e postos em uma face esculpida aos longos dos dezenove anos que lhe cobriam a pele com a beleza da juventude recém-chegada.

Ainda sem saber como conduzir o prenúncio de amor, esperei as noites correrem pelo céu até que viesse à mente qualquer ideia de revelação. Era novembro corrente, já pela metade do mês, quando resolvi finalmente dar vazão às prescrições românticas e investir naquele calor brotado do peito. Poderia ser apenas mais uma loucura a ser cometida por este já feito homem de trinta e dois anos, mas a demora por uma resposta espremia sem dó meu coração. Queria saber o que havia por debaixo daqueles cabelos cacheados feito uvas maduras, e não tinha mais alternativa para fiar.

Com passos abertos sobre as pedras úmidas de amanhecer da Rua Direita, segui pelo centro antigo da cidade até a Praça Central, onde poderia comprar rosas e lhe entregar com um escrito, no qual declararia toda a minha paixão. Talvez essa fosse também uma boa maneira de conquistá-la. Diante de sua porta, respirei fundo e toquei a campana. O som do instrumento me fez estremecer. Não havia mais volta. Os instantes seguintes podem ser comparados a séculos, de tão grande o tormento em minhas veias. Se a Catarina me amasse seria um homem mais feliz que pássaro em árvore fruteira.

Passou-se um minuto e não obtive resposta. A porta continuava cerrada e não se ouvia barulho algum de dentro da casa. Toquei novamente a campainha e aguardei ansiosamente por qualquer manifestação de vida. Cinco minutos sem retorno. Sentei-me no meio-fio e esperei por ela. Meia hora debaixo do sol, que acordou com vontade de se mostrar naquele domingo. Uma senhora idosa, que vivia ali por perto, ao ver meu desapontamento, aproximou-se e comentou, quase como se soubesse da minha procura, “a Catarina fugiu com um moço d’outro estado e a mãe está em viagem, senhor”.

A angústia em meu peito subitamente transformou-se em ódio. Aquela espevitada garota que me tirou o sono não tinha o direito de fazer-me de bobo. Joguei o buquê no chão e fui embora, ainda sem saber como reagir à notícia. Com o corpo a arder em rancor, segui até o bar mais próximo e comecei a beber. Afoguei toda a raiva em copos solitários de tristeza e álcool. Lembro-me agora de só ter acordado no dia seguinte, com a mesma roupa de antes, sem saber o que mais aconteceu. Novembro havia de passar, com seu cheiro de amor e velório, e o verão trar-me-ia, quem sabe, outra ternura pra distrair meus pensamentos. Não sei explicar, mas a primavera sempre me faz recordar Catarina, apesar de os tempos passarem e outras flores aparecerem em minha vida.

Poema avulso

Há de ter amor em seus olhos,
Quando me abraça tão suave,
Há de ter algo além do abraço,
Neste espaço que nos envolve?

Fragmentos


A alma perturbada de Lúcio vagou pela noite a observar a lua no céu daquele sábado. Ele estava por demais atormentado com os últimos acontecimentos de sua vida, antes tão monótona, para dar atenção aos carros que passavam pela via, quase a atingi-lo. Não aprendera a lidar com essas coisas que acontecem quando a gente precisa desaprender a amar e encontrar novas saídas para nossos sentimentos. Mesmo Lúcio, sempre tão dedicado a tudo o que se propunha a fazer, inclusive ao amor, carrega tais dúvidas, como esta de apaixonar-se ou não por Carmen, Angélica, Cristiane e outras pessoas sem nome.

Parou diante de um prédio qualquer, debaixo de uma árvore que fazia sombra com o luar. Sentou no meio-fio e permaneceu ali, pensativo, por muitos minutos. Depois, chorou algumas lágrimas e foi embora sem decidir nada. Queria mesmo era gritar, fazer sair de dentro dele aquela amargura e a indecisão de viver. Não conseguiu, mas continuou vivendo, ainda com todas as questões que atormentam sua mente em noites escuras de céu iluminado.

ReAmar


Eu quero mais uma vez,
O beijo afetuoso na manhã de domingo,
A lua cheia no céu de setembro,
A flor em desabrocho no início de novembro,
E a chuva fraca, pingo-a-pingo.

Eu quero mais uma vez,
O sorriso largo na face apaixonada,
A companhia afável na noite distante,
O sonho firme no caminho errante,
E a poesia romântica em rimas quebradas.

Eu quero mais uma vez,
Os mistérios presentes no não dito,
As proezas de uma doce surpresa,
O jantar junto sobre a mesa,
E o pra sempre nunca escrito.

Eu quero mais uma vez,
O suspiro profundo de um até breve,
O abraço apertado de saudade no dia seguinte,
O café da manhã com sabor de requinte,
E um amor que me arranque arrepios leves.

Dois caminhos, uma estrada


Dois caminhos,
Um vai,
O outro volta.
Não há sinal,
Não há final,
Nem curvas.
Dois caminhos,
A mesma estrada,
E uma dúvida:
Ir ou vir?

Trilogia do Tempo em Giro - Espera e Segredos



Margarida não dormiu bem à noite. Desde que foi demitida da loja de roupas, lá no centro da cidade, ela tem estado atormentada. São tempos difíceis. A mulher perdeu o emprego porque a empresa a considerava velha demais para trabalhar em um estabelecimento daqueles. Preferiu trocá-la por uma jovenzinha de 20 anos. “Veja se pode uma coisa dessas?” Questionava sempre a mulher com todos aos quais contava o motivo da demissão.

Aliada à perda do emprego vieram brigas com o marido e o início de uma depressão. O matrimônio já não era tão estimulante como há 32 anos, quando se casaram. Ela também se sentia um pouco inútil em não poder ajudar o companheiro, que era taxista e não ganhava muito dinheiro, com as despesas da casa. A sua tristeza de mulher se escondia por trás daqueles olhos grandes e vivos aos 51 anos. Margarida aprendeu, desde criança, que às vezes é preciso sofrer calado.

A mulher acordou às quatro da madrugada e não conseguiu mais dormir. Ficou deitada na cama, pensando na vida e criando fantasias na cabeça. Talvez conseguisse um novo emprego em breve. Tinha deixado o currículo em muitas lojas e havia esperança de ser chamada. Quem sabe, se isso acontecer, tudo pode ser diferente. Acreditava, pois era a única coisa que ainda lhe tirava um pouco a depressão e as memórias ruins.

Por não saber fazer nada além de cozinhar, lavar e passar, Margarida sempre teve trabalhos de doméstica. Somente nos últimos anos garantiu o serviço na loja de roupas, onde executava atividades variadas por mais de dez horas ao dia. Apesar de cansativas, ela gostava das tarefas. Naquela madrugada, a mulher se colocou a pensar em como seria caso conseguisse um novo emprego. Poderia até comprar uma máquina de lavar nova ou um fogão elétrico.

O dia amanheceu lentamente. Às seis horas Margarida já tinha se colocado de pé e preparado o café da manhã. A qualquer momento o marido voltaria para a casa e era dever dela deixar tudo pronto para ele se alimentar e descansar. Como o homem demorava a chegar e o filho ainda dormia, ela resolveu assar alguns pães de queijo que havia amassado no dia anterior. Tudo muito simples, mas feito com carinho. Essas pequenas coisas faziam sua vida ganhar um pouco mais de sentido. O café ficou pronto, os pães de queijo assaram e nada do esposo retornar. “Algo deve ter acontecido”, pensou a mulher em sua mente ingênua. Aconteceu. Porém, ela não ficaria sabendo da verdadeira história.

Trilogia do Tempo em Giro - Coisas que acontecem por aí



Antônio começou a trabalhar um pouco mais tarde naquela noite, às nove horas. Como taxista, era preciso ralar duro para conseguir sustentar a família. Sua mulher estava desempregada há oito meses e arrumava apenas uns bicos de vez em quando. Dos três filhos, dois se casaram e um ainda morava com ele. Geralmente, o homem já de longa data, prestes a completar 56 anos, saía de casa por volta das seis e retornava apenas no dia seguinte. Trabalhar durante a noite era perigoso, mas essa foi a maneira que ele encontrou pra ganhar uns trocados.

O táxi não era novo, tinha mais de cinco anos de uso continuo. Fora comprado por meio de um financiamento, quitado recentemente. O carro e a pequena residência em um dos bairros distantes da cidade foram os bens que Antônio conseguiu adquirir em muito tempo de trabalho. Além da família, algo de estima para aquele homem. Ele suou bastante até hoje para manter a ordem em tudo e não se desesperar diante de tantos problemas em casa. Brigas com a esposa, falta de educação dos filhos e necessidade de dinheiro. Essas e outras coisas que acontecem nas famílias.

O motorista dirigiu o veículo pelo centro da cidade em busca de passageiros. Um aqui e outro ali iam desenhando o seu trajeto de taxista. Nesta vida, ele conheceu cada canto das ruas mais vazias. Percorreria de olhos fechados qualquer lugar que necessitasse dentro da linha do município. Isso lhe deixava com ar de felicidade, pois acreditava representar a sua capacidade em ser um bom trabalhador do volante.

A noite não estava muito boa. Apesar de ser sexta-feira, o movimento era pouco. Em seis horas de trampo ele conseguiu ganhar somente 140 reais. Se descontasse o valor do combustível e as taxas extras que pagava pela prestação do serviço, sobraria menos de 80 reais. Nos últimos meses tem sido difícil trabalhar, pois a concorrência é grande. A esperança de Antônio é que no final da noite o número de viagens aumente, quando as pessoas começam a voltar para as casas depois das festas e bebedeiras.

Das três da madrugada até as seis o taxista fez mais alguns trocados. Seria o suficiente para passar bem os dois próximos dias. Por volta das cinco e meia ele pegou o último cliente em uma boate e foi levá-lo. O garoto era conhecido de outras viagens de fim de noite. Podia ser sorte do motorista o passageiro morar longe. Isso significava corrida mais cara e lucro certo. Foram 45 minutos até o condomínio onde vivia o jovem, que fedia a cigarro e dormiu metade do trajeto. Dinheiro na mão, Antônio pegou a rodovia para cortar caminho e chegar em casa mais cedo.

Pela estrada ele ouvia no rádio as primeiras notícias daquele sábado e se sentia bem, apesar do cansaço e do sono. Instantes depois de pegar a rodovia, uma puta deu sinal e Antônio resolveu parar. Não era nenhum programa e ele sabia disso. A garota de olhar triste estava indo descansar após uma noite de trabalho. No táxi eles quase não se falaram. Vez ou outra o homem olhava pelo retrovisor as pernas longas e torneadas da rapariga. Ela devia ter vinte e poucos anos e parecia ser boa de cama.

Os olhares foram percebidos e a moça se insinuou. Não era possível agüentar a provocação, afinal ele era homem. Além de tudo, prostitutas estão sempre prontas e loucas por um sexo quente e gostoso. Antônio não resistiu e meteu como um cavalo nela em um motelzinho barato ali perto mesmo. Terminado o serviço, deixou-a numa rua do centro e foi embora tomar o café da manhã com a esposa e o filho.

Trilogia do Tempo em Giro - Se a vida não fosse puta



ESTA CRÔNICA TAMBÉM FOI PUBLICADA NO SITE JORNALIRISMO.

Patrícia entrou no táxi depois de esperar por quase 30 minutos no ponto em frente ao motel. Tanto tempo se justificava pela localização do estabelecimento, uma rodovia fora do perímetro urbano. Essa fora mais uma noite de muito trabalho e pouco prazer. A maquiagem já havia sido retocada cerca de cinco vezes nas últimas oito horas. Na bolsa, além do batom vermelho e demais utensílios de beleza, ela levava o dinheiro que ganhara de homens enfadonhos, gordos e rabugentos que lhe contrataram para alguns minutos de sexo.

A rotina daquele trabalho há muito não lhe dava esperança de encontrar o príncipe encantado que se apaixonaria por ela, a puta bela de pernas grandes e poses extravagantes. Dentro do táxi ela percebia a paisagem pobre da periferia passar pela janela, como se fosse um mundo esquecido pelo resto da humanidade. Barracos de madeira e casebres pendurados nos morros. Mas estava por demais distraída para se sensibilizar com a tragédia dos homens.

A jovem rapariga, com apenas 22 anos, notou o olhar do taxista pelo retrovisor. Ele observava suas pernas dentro da saia curta. Patrícia ficou meio desconcertada em princípio, até mesmo envergonhada com aquilo. O homem ao volante levava no dedo a aliança de um compromisso conjugal e no rosto, junto com o bigode grande, as marcas de uns cinqüenta e poucos anos. Ele voltou a olhar as curvas da moça e ela pode perceber, então, o desejo naqueles olhos.

Sem muitas palavras e uma negociação rápida, eles chegaram a um motelzinho de beira de estrada, bem mais modesto do que os outros onde ela esteve durante a noite. Os letreiros luminosos já não funcionavam e, no muro, podiam-se ler palavrões pichados. Entraram no quarto pequeno e tiraram as roupas sem muita cerimônia. Em menos de 20 minutos tudo havia sido consumado e os dois corpos se estiraram lado a lado descansando. O taxista acendeu um cigarro e ofereceu outro a Patrícia, que aceitou prontamente. Fumaram e, em seguida, vestiram as roupas novamente.

Já no carro o senhor perguntou onde ela queria ficar. Patrícia deu a direção e eles seguiram em silêncio, apenas com algumas trocas de olhares desconcertantes de vem em quando. Poucos quilômetros à frente a moça desceu do veículo. O táxi seguiu seu trajeto. A rapariga também continuou seus passos tortos de quem está cansada. O salto machucava seus pés e a coluna doía.

Além de todas essas inconveniências de quem ganha a vida na noite, Patrícia ainda precisou ouvir assovios e piadas de mecânicos que começavam o dia em uma oficina da esquina. Não reclamava, apenas colocava um pé diante do outro para chegar a sua casa e dormir um pouco. O corpo exausto não permitia à sua mente funcionar corretamente. Assim, ela só caminhava. Já em seu habitat, a solidão lhe veio à porta receber com cumprimentos mudos. O estreito apartamento bagunçado revelava sua intimidade revirada de mulher da vida, que vive só, sem ninguém pra lhe ouvir e com muito a dizer.

* Diz-se do nome Patrícia “aquela que tem a solidão sempre como companheira”

Flores para Geralda: uma história esquecida na memória



ESTA CRÔNICA TAMBÉM FOI PUBLICADA NO SITE JORNALIRISMO E NO JORNAL ESTADO DE MINAS, CADERNO D+.

No rádio, posto sobre a mesinha de cabeceira da cama, toca uma velha canção. O programa é mais um daqueles típicos das manhãs, com músicas antigas e informações. O locutor, vez ou outra, interrompe a seqüência com sua voz melodramática e grave para ler alguma carta e contar histórias. Nesse ambiente nostálgico mais uma figura compõe o espaço com uma vida monótona.

Geralda está deitada. Seu estado é de quem não está completamente acordado nem dormindo. Nos últimos anos ela tem parecido uma criança e faz hora para se levantar. Como não há ninguém para lhe encher a paciência, pouco importa se vai ficar o dia inteiro na cama ou se vai madrugar.

Ela gosta de ouvir aquele programa. Há muitos verões pensa em escrever uma carta contando a sua história e enviar ao locutor. Mas ainda não teve coragem suficiente. Até já começou a desenhar umas letras no papel, mas ficaram feito rabiscos sem sentido. Ela não é mulher de muita inspiração para fazer drama da própria vida, apesar de tudo o que tem passado.

Apenas uma pequena quantidade de luz entra pela janela, deixando o cenário com um aspecto solitário. Geralda vive sozinha desde que o marido faleceu, há 13 anos. Não teve sorte com filhos. O único que nasceu vivo durou somente quatro meses e morreu de pneumonia. Sua casa fica em uma região antiga da cidade, onde quase todas as residências já foram condenadas pelo tempo. Anos que também deixaram marcas na sua pele. No próximo mês completará 74 anos desde sua meninice.

Para essa mulher, de vista enfraquecida pela catarata e de coração mole por natureza, os dias não têm mais significado para comemorar. Sua tristeza é de dar dó em qualquer alma vivente que a vê. Raramente sai do seu recanto. Só mesmo quando vai ao mercadinho pra comprar verduras. A alimentação é baseada no apetite, e este não tem ajudado muito. Isso se percebe pelos poucos quilos. A pele está, a cada dia, mais enrugada e os cabelos ralos já esbranquiçaram.

Nesta manhã de domingo, Geralda planeja caminhar pelo quarteirão para testar os ossos. Isso se houver coragem de se por de pé. Ela precisa mesmo respirar um ar puro, pois os pulmões têm dado sinal de que estão carecendo de mais vida. Porém, falta-lhe ânimo para abrir a porta e enfrentar toda a catástrofe do mundo lá fora. É mais fácil continuar em sua cama esperando o momento em que a morte virá buscá-la.

Ela tem pensado muito na morte ultimamente. Morrer seria melhor do que permanecer viva com tanto vazio em volta, além de toda a solidão no peito. Poucas vezes esquece este assunto. Só quando a memória falha. Nesses momentos não há o que pensar. A saudade do falecido marido também lhe é recorrente. Talvez a morte lhes unissem novamente, ela espera.

Uma música mais agitada no rádio faz Geralda acordar definitivamente. Já são dez horas e ela decide se levantar. Precisa ir ao banheiro. Primeiro senta na beirada da cama e procura pelas sandálias, que, apesar de estarem logo a sua frente, demora a encontrar. A velhice tem dessas e d’outras tantas coisas. Calça-as e pega a bengala. Anima-se. São apenas alguns metros entre a cama e o banheiro. Contudo, a anciã leva quase um minuto para percorrê-los.

Sentada no vaso, Geralda sente-se como se um frio lhe invadisse. Estava com a bexiga a ponto de estourar e o alívio dá também certo prazer. De repente, tudo começa a ficar escuro e ela cai. Poderia ser um desmaio por causa da fraqueza, mas não foi. Com a cabeça encostada ao piso úmido e sujo, Geralda finalmente encontrou a esperada morte.

Romance contemporâneo: desejo e solidão



Nem todos os nossos passos foram certos e firmes naquela madrugada de sábado, quase manhã de domingo. Saímos da boate depois de alguns beijos ardentes e já desejosos de algo mais. Percorremos, em poucos minutos, os três quarteirões que separam a casa noturna do apartamento dela, mulher feita, de pose, que vive bem, em cobertura da zona sul. Enquanto eu sou apenas mais um jovem aventureiro que curte loucuras fora da linha e mora em república estudantil. No caminho, conversamos sobre amor, sexo e futuro. Palavras vazias que voavam pelo ar, como a fumaça do cigarro nojento tragado lentamente por aquela boca carnuda.

Seguia-a, tal um cachorro perdido a qualquer sujeito desconhecido que lhe afaga a cabeça. Não era carência. Talvez fosse, antes disso, necessidade de solidão. Pois, só percebemos mesmo que desejamos estar solitários depois que a noite acaba e estamos sobre os lençóis amassados e com alguém estranho ao nosso lado. Mas isso é assunto pra ser discutido em linhas ainda por vir. Acompanhei o caminho sem questionar a minha direção. As respostas para as perguntas eram sempre planejadas, inconscientemente, como tentativa de me elevar o mais perto do seu mundo, tão distante, quase escondido aos olhos do meu universo errante.

Senti certo palpitar diferente em meu peito. Tive medo de ser carinho puro, daqueles que nos levam ao amor. Mas não vacilei e continuei até o prédio seguinte, frondoso, onde entraríamos. Senti, por alguns momentos, a sua mão a querer tocar a minha, e todas essas coisas que acontecem em primeiro encontro. Embarcamos no elevador espelhado, onde podia se ver por todos os ângulos. Receei que aqueles reflexos fossem olhos a nos observar, como se condenassem a nossa aventura. Repreensão de mãe por algo errado. Mas passou rápido. A caixa se abriu e saímos em direção a uma das portas à frente.

Enquanto a chave girava na fechadura, pensei em como as coisas são sutis. Não sabia ao menos seu nome completo e tampouco ligava para este fato. Queria mesmo era sentir suas pernas me cercando enquanto movimentava-me dentro do seu corpo. Mas este acontecimento ficaria pra mais tarde. Ela me convidou a entrar no pequeno, porém belo, apartamento. Diferente de todo lugar onde já pisei. No chão, um tapete com estampa de pelos de zebra. Pela parede, quadros de uma arte abstrata, pós-moderna e emocionante. Ao canto da sala, sobre a mesa, outro objeto revelou-me mais um pouco dela: livros abertos com dizeres de filósofos gregos e, ainda, uma estante recheada de clássicos de todas as literaturas.

Observei a habitação, como se fosse um animal a reconhecer o novo ambiente. Ela foi à cozinha e retornou em seguida, com duas taças. Ao notar as rugas na minha testa, explicou-me as artes. Falou sobre o quadro em que se viam olhos femininos com lágrimas de vidro. Foi aí que pensei em minha ignorância artística. Recebi a taça e provei o líquido gostoso. Doce álcool com sabor de morango. Ouvia-se o som que começava a tocar. Uma voz romântica, meio rouca, cantava qualquer canção européia, estilo rock melódico.

Sentamos na sacada para beber e conversar. A lua estava brilhante junto a todo aquele céu escuro, misterioso. Falamos novamente de amor, sexo e futuro e ela acendeu mais um cigarro. Entre um gole e uma frase esparsa, alguns beijos. Quando as taças já estavam quase vazias ela segurou em minha mão e disse: “vamos...”. E fomos. Os beijos se intensificavam e as peças de roupa caíam. O frenesi tomou conta dos nossos corpos.

Depois de tantos movimentos repetitivos, audazes, e de um estremecer que parece nos tirar e devolver a alma em segundos, ela se acalmou. Estava exausta e meio tonta, vi nos seus olhos. Sorriu e eu a beijei. Permaneci acordado, enquanto ela, deitada no meu peito, mergulhava em sonhos incógnitos. O dia foi amanhecendo aos poucos e, pela janela, pude ver a lua se despedindo. Em minha mente, pensamentos recônditos entravam em ebulição.

Levantei-me levemente para não acordá-la. Vesti a blusa e as outras peças do meu traje. A pele ainda estava úmida pelo suor. Fui ao banheiro e esvaziei a bexiga, quase por estourar de tanto mijo. Pela porta do quarto, observei por alguns instantes aquele corpo nu a dormir. Abri a porta da sala e saí para o corredor. O elevador não demorou muito. Desci pensativo. Já do lado de fora do edifício eu lembrei que não tinha o telefone dela, nem ao menos recordava o número do apartamento. Não dei muita atenção a isso e segui andando. Queria apenas ficar sozinho pra curtir minha solidão.

Sobre o destino, o amor e outras mentiras


ESTA CRÔNICA TAMBÉM FOI PUBLICADA NO SITE JORNALIRISMO.

Não houve comoção, a princípio. Apenas um leve estremecer da espinha dorsal. Fiquei pensativo, digerindo aquela notícia. A morte de Mariana veio sacudir as minhas lembranças. Trinta anos após o nosso breve - porém intenso – envolvimento, parei para pensar em toda essa história de destino, amor e felicidade. Imaginei, por alguns minutos, como teria sido a minha vida se a houvesse passado ao lado daquela louca rapariga de olhos azuis e cabelos ruivos. Talvez ela não tivesse morrido tão jovem, ainda no calor dos quarenta e nove anos.

Soube do falecimento de Mariana por uma amiga em comum da nossa época de aventuras amorosas em noites desiludidas, a Raquel. Apesar do distanciamento emocional, essa amiga permaneceu como companheira de outras tantas desilusões. Foi Raquel quem nos apresentou e quem mais incentivou o nosso namoro. Relacionamento conturbado, principalmente devido a minha necessidade de liberdade e ao meu apreço à libertinagem.

Acabei de desligar o telefone e ainda estou sentado nessa poltrona antiga de pai atencioso. A casa está vazia. Meus filhos foram para a faculdade e a minha esposa foi visitar alguém no hospital. Nesses dias de descanso, já que me recupero de um leve Acidente Vascular Cerebral, tenho tempo para pensar no que quiser. E agora estou pensando em Mariana. Tento imaginar o seu corpo estirado sobre a calçada, em frente ao velho prédio em que vivera por todos esses anos. O mesmo apartamento, no alto do décimo segundo andar, onde passamos noites inteiras observando o céu, as estrelas e o infinito de nossos sonhos. Faltava-nos o juízo e sobrava desejo, saciado em parte por três elementos: o sexo, o cigarro e o álcool.

Não entendo o motivo, mas as recordações não chegam a tocar meus sentimentos. Acho que os perdi todos ao longo da vida. Aprendi a representar os papéis que me foram designados de uma maneira tão fiel que não sobrou espaço para essas coisas que transparecem fraqueza. Devo estar velho demais para me permitir tais embaraços. Olho pela janela afora e vejo tantas coisas. Vejo-as sem perceber a densidade do mundo que me cerca nesta manhã de verão. Uma pergunta incomoda meus pensamentos: o que teria levado Mariana ao suicídio?

Há muitos mistérios escondidos atrás dos olhos das pessoas. Boa parte, não conseguiremos desvendar jamais. A morte de Mariana talvez fique assim, inexplicável. Ela sempre teve seus segredos e isso dava ainda mais charme à sua aparência de menina sapeca. Foi esse encanto que me fez perder a cabeça e viver alguns dos anos de maior intensidade da minha juventude.

Fogem-me da memória todas as lembranças quando ouço um barulho de chave na porta. É a minha esposa que chega. Ela entra distraída e eu a observo. Parece uma mulher estranha, apesar de estarmos casados há mais de vinte e cinco anos. Nunca me acostumei com a presença dela, mas consigo fingir bem. O que fizemos nesse período foi seguir à risca o protocolo de casal. Temos até uma foto de família-feliz sobre a estante.

Dos meus olhos caem algumas lágrimas, que não chegam a ser notadas. Minha esposa coloca uma bolsa sobre a mesa, me fala algo sem importância e segue para o quarto. Só então percebo que estou chorando. Acho que, mesmo sem querer, me comovi com a morte de Mariana. A idade nos deixa desse jeito contraditório, de quem quer ser o herói forte, mas tem o coração partido. Minha vida me deixou assim. Talvez tenha sido culpa do destino, ou do amor, que nunca me deixou acreditar nas circunstâncias. As coincidências me fizeram pensar que tudo era farsa. Agora vou lavar e enxugar esse rosto velho, despido das máscaras. Preciso saber do velório de Mariana.

Fotopoesia

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Estrada



Três passos,
Um tropeço.
Meio amargo o sorriso,
Depois daquele vago olhar,
Sem direção.

Mais um passo,
A espera, pela dúvida.
Há de ter sabor,
Em cada instante perdido,
Deste nosso caminho.

Desiste e senta,
A beira da estrada.
Sentiu o gosto açucarado,
Que sempre vem depois,
Quando a estrada já acabou.

Desejo e saudade



Quero sim,
Mais uma vez,
O sonho vivo na ciranda em noite de sábado,
E o beijo macio na manhã de domingo.

Quero experimentar o seu sorriso,
Com sabor de tangerina,
E o seu abraço tão esparso,
Neste espaço de silêncio.

Quero deitar sem sono,
E ficar a te olhar,
Depois do doce cansaço,
Sem nunca esquecer de amar.

Porque eu sei que amar é verbo,
Apesar de não ser assim, eterno,
Que se conjuga em primeira pessoa.
Com uma fina sintonia até acabar, feito fumaça.
[Ainda respiro a sua saudade...]

Paris já não tem o mesmo brilho


ESTE TEXTO TAMBÉM FOI PUBLICADO NO JORNALIRISMO.

Eram sete horas e vinte e três minutos. José Armando Pontes acordou impaciente naquela manhã de domingo, 31 de maio. À noite embarcaria para uma longa viagem. Apesar de ir com freqüência à Paris, esta seria a primeira vez que ele passaria o aniversário na capital francesa em companhia de sua esposa, Maria Lúcia Antunes Pontes. Ele ficou deitado na cama ainda por alguns minutos, antes de se levantar para o café da manhã. Pensava na vida e em tudo o que conseguira até ali. Era um advogado com uma carreira invejável e tinha uma mulher amável ao seu lado. Maria Lúcia, por sinal, também permanecia na cama. Ela não tinha acordado e, em seu sono, percebia-se uma calmaria profunda. Talvez estivesse a sonhar com a viagem de logo mais.

Armando permaneceu por cerca de quinze minutos relembrando alguns momentos de sua vida. Depois disso, colocou-se de pé e foi até a cozinha. A empregada já havia preparado o café da manhã e ele resolveu levar uma bandeja para sua amada. Acrescentou uma maçã, um copo de leite e um iogurte ao lanche matutino, que esbanjaria junto de Lúcia. A esposa nem acreditou quando acordou, com um beijo de seu marido, e viu aquela obra de arte em sua frente. Arte mesmo, porquê o casal sempre levou a vida como se fosse um grande espetáculo, ou talvez uma pintura clássica, onde a emoção deveria estar sempre presente. Aquela cena foi uma das mais felizes que eles tiveram nos últimos dias e simbolizava a união.

Às nove da manhã, Márcio Lucas Pontes, filho de Lúcia e Armando, chegou à casa dos pais para passar o domingo e ajuda-los a finalizar os preparativos para a viajem. Seriam 15 dias de muita diversão em Paris, cidade onde eles passaram a lua de mel e que, por isso, tinha um sentido especial para o casal Pontes. Conseguiram terminar todo o trabalho ao meio-dia. Os dois filhos de Márcio Lucas também estavam na casa e não deixavam o silêncio passar por perto. Corriam de um lado para o outro como se fossem dois coelhos. A família era uma das coisas pelas quais o advogado mais tinha orgulho.

Às treze horas o almoço estava na mesa. Todos se juntaram para saborear um peru assado e diversas delícias que Lúcia ajudara a empregada a preparar. Entre uma colher e outra, José Armando contava uma piada ou relembrava com um brilho no olhar de algum fato de sua infância, adolescência e juventude. Contou, talvez já pela milésima vez, do dia em que conhecera sua esposa. Foi durante um baile, na casa de uns amigos, em uma noite de sábado. Eram jovens naquele tempo. Ele com 18 anos e ela com 17. Amor que durou por toda a vida, desde aquela noite.

Às dezessete horas, todos se preparavam para a saída. Precisavam ir logo para o aeroporto, pois, como era tarde de domingo, o trânsito deveria estar congestionado com as pessoas voltando da praia. Quando já estavam no carro e a casa trancada, Armando se lembrou que havia esquecido algo. Voltou rápido ao interior da residência e buscou. Não comentou com ninguém. Era o primeiro cartão postal que ele comprou em Paris, em 1959, durante a lua de mel. Iria dar de presente à esposa quando chegassem à cidade.

Chegaram ao aeroporto às dezoito e trinta. O Voo estava programado para as dezenove horas. Despediram-se do filho, nora e netos as dezenove e vinte minutos, pois a partida do voo 447 da Air France atrasou. Lá do alto, dentro do avião, Armando e Lúcia ainda observaram a cidade onde viveram juntos por mais de meio século. Aproveitaram para tomar um calmante e dormir durante o trajeto. Cerca de cinco horas depois, enquanto dormiam, o avião teve problemas técnicos e eles, juntamente com outras 226 pessoas, terminaram a viagem antes do fim. Não veriam Paris novamente.


OBS.: Os personagens dessa história são fictícios, mas os relatos podem apresentar semelhanças com casos reais.

Mamãe, quero ser advogado-jornalista-engenheiro-palpiteiro



ESTE TEXTO TAMBÉM FOI PUBLICADO NO OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA.

Quase nunca escrevo algo em primeira pessoa, com o meu nome, sem ser texto literário, pois creio que minha opinião não tenha tanta importância para merecer isso. Hoje, expresso a minha indignação (diria até revolta) com uma decisão do STF (8 votos a 1) de extinguir a exigência do diploma de jornalista. Segue texto:

Por Milson Veloso

"A profissão não depende de um conhecimento técnico específico. A profissão de jornalista é desprovida de técnicas”. Com este argumento, a advogada do Sertesp (Sindicato das Empresas de Rádio e Televisão no Estado de São Paulo), Tais Gasparian, justificou a necessidade de se acabar com o diploma de jornalista, em votação que aconteceu nessa quarta-feira, 17 de junho, no STF (Supremo Tribunal Federal). Para conhecimento desta senhora, os estudantes de jornalismo não passam quatro anos em uma universidade apenas aprendendo técnicas, por isso o curso é de graduação e não tecnológico. Além disso, se realmente são as técnicas que têm importância, como ela tanto enfatizou para acabar com o nosso diploma, gostaria que ela produzisse, sem nenhuma orientação prévia, apenas três itens da nossa profissão: uma lauda de TV nos moldes tradicionais, onde conste a cabeça, um teaser, offs e a passagem; quero também uma grande reportagem para impresso com, no mínimo, 10 fontes, duas fotos em grande angular, um box e pesquisas de arquivo; e, ainda, um texto para a internet com três hiperlinks de meio de texto. Tudo bem, essas questões podem até ser absorvidas por um advogado, médico, engenheiro ou por alguém que nunca sentou em um banco de uma universidade, mas nenhuma profissão se limita às técnicas. E, durante o meu tempo de redação, que não é tão extenso assim, não encontrei nenhum desses profissionais querendo dizer algo de extrema importância e que não tenha obtido espaço, para chegar a esse nível de querer ocupar a nossa cadeira.

Outro ponto que considero relevante nas discussões realizadas no STF para justificar a extinção do diploma foi a fala do ministro Ricardo Lewandowski: "Esse decreto é mais um entulho do autoritarismo da ditadura militar que pretendia controlar as informações e afastar da redação dos veículos os intelectuais e pensadores que trabalhavam de forma isenta". Gostaria de informar a este cidadão que qualquer pessoa pode escrever em um jornal, desde que tenha conteúdo ou a sua produção seja de interesse público. Se algum intelectual tem interesse em ser jornalista, pode prestar vestibular em uma instituição de ensino superior e cursar jornalismo. Caso queira escrever periodicamente, em primeira pessoa, pode se tornar colunista. Não há impedimento para a livre expressão só pelo fato de os profissionais serem formados. E tem mais, o papel de um jornalista, a priori, não é emitir opinião, mas informar. Isso não sofre interferência negativa alguma das escolas superiores de comunicação.

Meus caros ministros do STF e demais membros da sociedade brasileira, o que se defendeu, na verdade, com a extinção da exigência do diploma de jornalista no Supremo Tribunal Federal, foi o direito de os magnatas da comunicação no Brasil, em sua maioria políticos, articularem mais facilmente suas tramas, já que os profissionais, geralmente, não são convenientes a determinadas atitudes e acabam demitidos por não concordarem com tais práticas. Essa medida é, em primeiro lugar, uma tentativa de desmoralização da profissão para que a gente não incomode tanto. Gostaria só de saber quais foram os profissionais da engenharia, medicina, direito e demais áreas, que queriam/querem tanto ser jornalistas, já que este foi um dos argumentos do STF. Onde estavam eles que não foram protestar por este direito? Se realmente querem, formem-se jornalistas e não engenheiros, médicos ou seja lá o que for.

Sonho

Poesia com Café

“Jamais seremos tão jovens...”



“Vem, senta aqui ao meu lado e deixa o mundo girar, jamais seremos tão jovens...” Hoje li esta frase do Shakespeare e comecei a refletir sobre a essência da juventude. É tão estranho, passamos boa parte da infância querendo ser adultos e depois sofremos por causa das responsabilidades. Nunca estamos totalmente contentes – talvez seja bom, pois nos leva a querer melhorar algo. E enquanto o tempo passa, vem o medo da velhice, do término de alguma coisa que não deixamos começar de fato.

Estas palavras de Shakespeare soaram-me como um convite [“vem”]; como um desejo e ordem, ao mesmo tempo, [“senta aqui”]; como uma carência [“ao meu lado”]. Porém, mais do que isso, falaram-me da liberdade [“deixa o mundo girar”]. O que representa mais a juventude [falo por mim, afinal, tenho 20 anos] do que isto: desejo, carência, liberdade?

Preciso dizer-lhes que nunca gostei muito dessas teorias de auto-ajuda. Isso de “vamos viver o presente” sempre me pareceu uma desculpa de quem tem medo do futuro [e não quer pensar no que pode acontecer amanhã] ou tem vergonha do passado. Diante dessa frase, eu senti um desejo de realmente seguir o convite. Pois, “jamais seremos tão jovens...” É triste pensar que, daqui a alguns anos, poderemos repetir as mesmas reclamações que fazemos hoje em relação à infância: “por que eu não aproveitei mais aquela época?”

"Elas cantam Roberto"


Para Maísa

“As coisas estão passando mais depressa... A vida passa, o tempo passa...” Quando a Marília Pêra encenou essas primeiras palavras - da música 120...150...200 Km Por Hora - eu percebi que estava diante [não de uma tela de TV, mas] de uma das maiores produções musicais dos últimos tempos [já transmitidas em rede nacional na noite de domingo - esse tom de sarcasmo faz parte]. Confesso que fiquei meio desmotivado a permanecer em casa quando soube da notícia: “hoje à noite, logo depois do Fantástico, você vai conferir um Especial Roberto Carlos”. Nunca fui muito fã desse cantor, mas com a interpretação da Marília – e que show de interpretação – não tinha como ficar indiferente. A emoção esteve presente em cada letra, em cada sílaba, em cada palavra. “Eu vou voando pela vida sem querer chegar...” disse muito, aos meus ouvidos e à minha alma. E os olhares insinuantes falaram tão forte que eu parei de prestar atenção ao espetáculo [assim que ela saiu do palco, ainda cantando] para vir escrever este post. “Elas Cantam Roberto” foi uma espécie de redescobrimento em minha vida [ÓohhH!]. Até este momento, nunca havia conseguido aceitar plenamente as músicas do Roberto Carlos. Tinha certa marra com ele, confesso, mas toda a sua carreira valeria a pena por esta homenagem. Diante daquelas vozes de destaque [de Sandy à Alcione, de Cláudia Leite à Zizi Possi – sem desmerecer ninguém] eu pude sentir tantas emoções que... Ah! Deixa pra lá. Na verdade, eu não sei bem por que escrevi isso aqui, só não poderia deixar passar despercebido meu sentimento.

Campos de Arauto



ESTE TEXTO TAMBÉM FOI PUBLICADO NO SITE JORNALIRISMO.

Marcelo tinha cinco anos quando viajou pela primeira vez, no lombo do cavalo, pelas margens do rio até a parte de cima, de onde as águas brotavam. Pelo menos essa era a viagem que guardara na memória como sendo a primeira. E isso é o que vale como verdade. Do pouco que se lembra, restam saudades daquele passeio que durara três dias inteiros e três noites. Passeio difícil pela carência de automóveis e recursos. De momentos em momentos a tropa - composta pelo pai, a mãe, dois irmãos, um mais velho e outro recém-nascido, além do tio - parava para descansar e tocar os animais pelo pasto da beira de estrada.

Aquela era época de frutas, como manga e umbu. Próximo ao rio algumas goiabeiras também estavam enfeitadas de frutos e pássaros, que se aproveitavam do pouco movimento para se fartarem. Foi debaixo de uma mangueira, a uns duzentos metros da margem do rio, que eles pararam daquela vez. Era ainda o início da tarde do segundo dia. Isso significa que teriam de trotar com os cavalos por mais umas trinta horas até chegarem à vila onde moravam alguns dos parentes.

Não há uma exatidão para se contar o tempo em que a família descansava em cada parada. Nessa tarde, a mãe de Marcelo – uma mulher com meia idade, aproximando dos 35 anos e conhecida como Cida de Zé, pois o seu marido era o Zé da Tropa – prepararia uma farofa pra eles espantarem a fome. Sem muito luxo, apenas uns peixes assados no calor das brasas improvisadas no chão, umas batatas doce e a farinha que Cida de Zé trouxera no embornalo. Essa refeição, comida quando a fome aperta o estômago, deixa até uma vontade de “quero mais”.

Mas nada era de fartura na viagem, a não ser as mangas que vez ou outra insistiam em cair perto de algum ser vivente a descansar, como se ameaçassem acertar a cabeça de alguém. Também as goiabas estavam a se perder. Mas estas não eram tão boas. Pois, ao comê-las, podia-se se deparar com algum bicho dos brancos dentro da fruta. Era preciso atenção caso não quisesse mastigar as lagartinhas doce-amargas. Marcelo mesmo comeu umas cinco. Não lagartas, mas goiabas. Mas ele não se importava se tivesse mesmo comido qualquer coisa diferente, o que valia era que se satisfez e se divertiu subindo na árvore para pegar as goiabas mais docinhas, que sempre ficam lá no alto.

A vida de Marcelo era feita de pequenas alegrias, como subir em árvores e comer frutas. Ele não sabia, mas essas coisas miúdas dão mais sabor à existência. E, ademais, a felicidade é algo que não se pode sair por aí a medir, como se fosse um pedaço de terra a venda ou um quilo de feijão. São nas entrelinhas das estórias, que quase nunca se tornam história, onde a gente, como Marcelo e sua família, constrói os casos mais bonitos de serem contados. E é preciso um pouco de inocência, da percebida nos olhos deste menino ainda descalço de muita sabedoria, para entender o mundo em seus enigmas.

Mistério é uma palavra que o pequeno garoto já ouviu muito. Das estórias que o avô contava quando ainda estava vivo - pois agora já se foi do alcance de nossos olhos - e repetidas na voz do pai tantas vezes, ele extraía a emoção dessas letras não totalmente compreendidas. Contava-se, naqueles campos, de almas penadas, lobisomem, mula-sem-cabeça e outros bichos assustadores. Isso era o mistério que ele conhecia, além da própria vida.

Depois de ter comido tudo o que agüentava, Marcelo dormiu por alguns minutos enquanto o resto da tropa também aproveitava para descansar. Foi assim que ele sonhou pela primeira vez com o avô desde que este partiu. Tratava-se de um estranho sonho, no qual o avô lhe mostrava uma viola já velha e cantava uma música que ele não esqueceria, nem após acordar. Era assim: “Pelo rio que vem a vida e por essas águas que lavam nossas mãos, Deus pai não deixe nunca, sofrer meu coração”.

E do sonho despertado, o menino não parava de repetir, tal como maritaca, esse verso. Só quando crescesse saberia o real significado da parte “sofrer meu coração. Porém, isso não é assunto para essas páginas, pois há o fim da viagem a retratar. Essa sim teve uma surpresa que não muito agradou. Logo que a tropa começou a trotar caíram já alguns pingos. Era chuva das caprichadas. Tiveram que parar novamente debaixo de um jatobá e atrasaram o percurso em mais uma hora, até as águas passarem. Não houve trovão nem raio, mas saíram encharcados e perderam parte da farofa que restara. Teriam que improvisar a comida do jantar. Mais um dia cavalgando e estariam finalmente no povoado para os festejos de Reis. Festa boa e de muita gente. Povo que vinha de todos os lados do rio para se encontrar ali.

Quando o fim da tarde chegou, Marcelo pode acompanhar o sol com os olhos até o momento em que ele se escondeu atrás das árvores. Era quase noite. A mãe preparou um mexido de peixe e outras iguarias da terra e todos se fartaram. Montaram uma cama de mentira na areia. Lá, dormiriam por umas oito horas. A noite passou sem contratempos. No dia seguinte levantaram pelas cinco da matina para seguir o último trecho. Desse final do percurso não cabe mais relato. Da festa tem muito a contar, mas não aqui nessas linhas tortas. E de resto, para o sossego geral, tudo se sucedeu ao esperado.

Palavras de uma tarde qualquer



O silêncio preenchia aquela caixa metálica espelhada enquanto quatro pessoas, incluindo a ascensorista e eu, subíamos para alguma sala do edifício.

[O elevador está no quarto andar...]

Uma voz feminina, já meio rouca pela idade, quebra o ar em uma frase quase sem sentido.

“...eles fazem isso só hoje e depois esquecem tudo”.

Disse aquela senhora que aparentava seus cinqüenta e poucos anos e segurava um panfleto. No papel, a imagem de uma mão atravessada na greta de uma cela segurando uma rosa vermelha. Na capa, letras uniformes: “Dia Nacional de Luta Antimanicomial”.

[O elevador passa pelo quinto andar...]

Senti um nó subir pelo peito e engasgar na garganta.

“Mesmo que seja só por um dia, mas não podemos perder a capacidade de nos sensibilizarmos diante de determinadas questões sociais”.

Essa foi a resposta que eu senti vontade de dar à senhora, quando ela questionou a movimentação.

[O elevador passa pelo sexto andar...]

Entendo a revolta daquela mulher pela passividade das pessoas quando lhes são apresentados alguns problemas. Apenas por este ponto de vista. Mas, eu me sensibilizei com a tal manifestação pelas ruas de Belo Horizonte. Talvez tenha sido mesmo só por algumas horas, mas fui tocado.

[O elevador passa pelo sétimo andar...]

As letras dos cartazes, o barulho do som no caminhão e aqueles olhinhos que me observavam enquanto os Seres Humanos marchavam. Aquilo me tocou de uma forma profunda e eu chorei. Pensei em quanto eles devem sofrer trancafiados dentro de um quarto por serem diferentes. Penso também que a minha emoção, em parte, foi pelo fato de ver uma manifestação. Um aglomerado de pessoas que gritavam por mudanças no comportamento social.

[O elevador para no oitavo andar...]

Isso é luta. E a luta existe sempre que há esperança e a necessidade de transformação. Espero que esse sentimento aqui dentro de mim não passe. Espero também que permaneça a capacidade de ver os outros, e não somente o meu umbigo.

[A porta do elevador se abre...]

Saio da caixa ainda pensativo e sem ter dito sequer uma palavra.

Subtração lacônica


[... E eis que o pó transformou-se em uma matéria mais consistente e sólida, da qual seria feita a Criatura]. Rabiscou César em uma folha amassada de papel. Ele estava meio atordoado naquela manhã. Acordou pensando na lógica da existência. O que é a vida? Esta era a questão da sua dor de cabeça matutina. Além da interrogação, seu mal-estar também tinha outra explicação: ressaca [moral e física]. Dormira poucas horas, bebera muito na noite anterior e aprontou besteira.

Eram nove horas e trinta e sete minutos e mais alguns segundos. Havia quase meia hora que ele remoia em seus pensamentos os porquês psico-freudianos. Felicidade, vida, amor, saudade, lembrança, sonhos, morte. Tudo é relativo, como a física, a química, a biologia e todas as outras matérias da subjugação humana. Só a matemática continua com a sua lógica imoral. E o seu saldo emocional [matemática aplicada à psicologia], obtido com a aplicação da fúria e ciúmes diante de Júlia, era negativo. Estava em débito com quem mais amava por causa de umas poucas cervejas.

Não tinha sentido viver sem Júlia. Foi a conclusão a qual César chegou. Não queria levantar da cama e ter que enfrentar o mundo depois daquela briga. Resolveu dormir mais um pouco. Quem sabe quando acordasse perceberia que não se passava de um pesadelo. Aos poucos, pegou no sono novamente. Despertou somente às três da tarde com o toque do telefone. Era Marina, a melhor amiga de sua amada. Atendeu meio sonolento: “Oi”. Do outro lado da linha uma voz ofegante disse: “César, a Júlia se suicidou”. Ele desligou o telefone, levantou-se ainda mais confuso, abriu a janela de seu quarto e pulou. A força da gravidade o transformou em matéria [sem vida]. Mais alguns anos e ele voltará ao pó.

Perífrase


O silêncio de Renata, naquela tarde de domingo em que o sol insistia em prolongar o seu espetáculo, significava muito além da falta de palavras. Da janela de seu quarto, ela observava o horizonte, colorido de um amarelo-avermelhado, como a solidão que ainda não se apagara. Este momento representa algo que Renata não compreende na totalidade. Ela gosta de olhar o mundo de sua janela e pensar que um dia vai chegar além de onde o sol de põe todos os dias. Os minutos gastos para observar aquele fato da natureza não são contados no seu relógio de braço. Cada movimento das nuvens e do astro-rei é contabilizado com o pulsar do coração. Em sua pequena alma de mulher, Renata sonha com a tarde em que não mais viverá tão só. Mas já sente saudades de todos os pores-do-sol que viveu até agora. Ela vai casar na próxima semana.

Quinze Anos


Natália não sabia muito bem qual era o motivo daquele sentimento que lhe atravessava o coração. Algo estranho que colocava um nó na garganta e apertava o peito. Ela caminhava lentamente em direção à sua casa, já atrasada na volta do colégio, enquanto tentava decifrar a tal perturbação. Era uma mistura de solidão, liberdade, amargura, tristeza e alegria. Tudo de uma só vez.

Naquela noite ela faria quinze anos e até havia uma comemoração preparada pela sua mãe. Não ligava muito para esse fato. Pois, o que Natália queria mesmo era sair por aí sozinha, pela cidade, sem um destino certo. Essa necessidade tem a ver com o desejo de ser livre e de estar só, experimentando o doce prazer de respirar em silêncio e ouvir o vento. Isso é algo que ela ainda estava a aprender.

“Quinze anos!” Disse para si mesma quase sem pensar. E repetiu mais uma vez, “quinze anos”. Fase que não se repete, como todas as outras. O que significaria completar quinze anos? As amigas mais velhas diziam que era uma passagem na vida, uma mudança para a maturidade e para a juventude. E essas coisas precisam lá de uma data específica? Questionava a garota sem esperar uma resposta. No fundo, ela sabia que a festa de logo mais à noite seria apenas um teatro a ser representado diante dos amigos e familiares.

Quando passou pelo portão, percebeu que a movimentação na casa já estava um pouco maior do que a rotineira. As pessoas preparavam sua celebração. A mãe já tinha, inclusive, escolhido o vestido que ela usaria mais tarde. Uma roupa de tecido fino e cheia de pequenos detalhes. Não deu muita atenção ao experimentar pela milésima vez a peça e apenas notou um sorriso no rosto matri. A realização parecia ser mais dela do que da própria filha. E Natália sabia disso.

Seguiu em silêncio para o quarto, onde escreveu algumas palavras sem sentido no seu blog sobre toda a confusão sentimental que a deixava assim. Depois deitou na cama e ficou a olhar para o teto, até se entregar lentamente ao sono e dormir. Uma paz dominou sua aura e o rosto adquiriu uma nova forma, como se Natália ainda fosse aquela criancinha de dez anos atrás.

Os olhos estavam um pouco embaçados no momento em que acordou. A mãe, diante dela, dizia qualquer frase sobre o avançado da hora e que os convidados estavam chegando. Natália deixou-se levantar, vagarosamente, como se as forças ainda não tivessem acordado. Preparou-se para o banho, no qual demorou bons minutos experimentando o frescor da água descer pelo corpo e lhe provocar sensações novas de prazer.

Aprontou o cabelo e colocou o vestido brega de princesinha, que não combinava nem um pouco com o piercing que instalara mais cedo na língua, escondida da mãe, na casa de uma amiga do colégio. A boca doía como resposta a esse procedimento aventureiro. Alguns minutos mais tarde o padrasto batia à porta para lhe buscar. Havia ainda toda a cerimônia de descer as escadas de braços dados com o velho. Aquele homem que ela não conhecia muito bem e com o qual dividia o mesmo teto.

Não resistiu e deu o braço. Contudo, percebia-se pelo seu ar de indiferença que não estava sensibilizada com toda a pompa da festa. Justo Natália, que tinha se tornado tão cheia de sentimentos variados, não se comovia com a hipocrisia daquela gente lá embaixo a esperar por ela. Parou por uns 30 segundos no alto da escada, como se fosse desistir de tudo e voltar pro quarto. Essa era realmente sua vontade, mas não se entregou. Com passos lentos, pisou em cada um dos 10 degraus e caminhou em direção aos seus quinze anos, enquanto planejava: no dia seguinte faria uma tatuagem nas costas pra se sentir mais madura.

Arcos e Flechas



Postos para a guerra,
Arcos e flechas,
Mãos que se esqueceram,
De dizer adeus.

Os pássaros já não voam.
O sabiá – meu companheiro,
Não cantou esta manhã.
As lágrimas se misturam com o orvalho e o suor.

Há um canto.
Um som assustador.
Metralhadoras e canhões,
Disparando – corações.

O rio, inundado de corpos,
Tem sua água avermelhada.
É o sangue da vida. Da luta.
Da esperança – de liberdade [?]. E da ignorância humana.

EGO[cêntrico]


Tenho feito algumas análises comportamentais com pessoas [sem elas saberem] e acho que a psicologia me revelou umas verdades inconvenientes. Primeiro, o ego do ser humano é pior do que a bomba atômica. Pois, esse ego [ismo] é que constrói as piores armas e produz as maiores destruições. Essa coisa que fica dentro de nossas cabeças nos induzindo a pensar que devemos ser melhores que o nosso vizinho. Esse sentimento podre que nos leva a desenvolver maneiras macabras de dizer aos demais que eles estão um pouco piores. É isso que faz uma mulher comentar que a sua amiga engordou, só pra se sentir superior. É também essa coisa nojenta que faz o cara entrar pra academia e ficar bombadão, pra mostrar aos amigos a sua força maior. Não é autoestima nenhuma, é ego. Autoestima nos leva a fazer coisas por nós mesmos, não pra aparecer diante dos outros como superiores.

Disse, certa vez, Erving Goffman [um estudioso da antropologia] que estamos sempre representando algum papel diante da platéia. Acho que estou um pouco paranóico com isso. Fato é que me pus a acreditar que não sou um bom ator e me esforço para não o ser. Quero ser contradição nas representações. Vou confundir as cabeças alheias e deixá-las perdidas. Mas, como o assunto aqui é ego, vou cortar o meu um pouquinho e não comentarei mais de mim. Bem, falava do ego alheio. Pois, quero compartilhar mais uma coisa: o mundo está cheio de egos inflados. Quando ando pelas ruas até sinto certo medo. Parecem monstros de sete cabeças. E isso não é o pior de tudo. Sabe o que me levou a escrever toda essa asneirice teórica? Acredite, o meu próprio ego. Não resisti.

RE]verso


Eu quero te falar hoje, assim mesmo em primeira pessoa e sem amarras [com esta narrativa prolixa], de toda a loucura da minha mente. Mas eu te peço que não me toques [nesta noite]. Lave as mãos pra não me contaminar com a tua pureza [depravada]. Já perdi tudo o que era teu.

Nossos passos seguem caminhos [opostos] em direção ao horizonte. O dia vai nascer pra mim. E espero que o sol não se apague. Ainda que não entenda a minha poesia [fraca], ouça de olhos fechados. É de sentir, como a pele em arrepios pelo vento no pescoço. Não vou dizer palavras de amor. Pois, elas já se foram todas.

Vamos contar estrelas, neste mar em estação. Veja o doce-amargo que te alimenta [com o prazer]. Tudo [é contraponto e] o que existe é ilusão. Cante segredos e toque o ar com as mãos. Pegue suas verdades e guarde-as nas árvores.

O tempo é presente, esta surpresa de estar. Seja a tua vida uma rima, uma estrofe [sem nexo]. O refrão é o RE]verso. Inverso? Sempre é permanência. A estrada é transição. ]Sigamos[.

Dúvidas do Rei


- É verdade que o sol é de fogo, papai?

Perguntou, naquela tarde de setembro, o pequeno César ao seu progenitor, Armando. Não que o homem já feito não soubesse responder, mas achou inútil aquela explicação. Apenas disse:

- Sim...

O garoto continuou curioso, mas o pai demonstrou que não estava para papo-furado. Então, César resolveu ir averiguar com as próprias mãos as demais curiosidades sobre as peripécias da natureza. Pena que não conseguia testar todas. Por exemplo, sempre quis saber se as nuvens eram de algodão, se as estrelas eram vaga-lumes ou vice-versa. De tudo o que tinha vontade de saber, a única coisa que descobriu de imediato é que as borboletas são mesmo lagartas. Para tanto, arrancou as asas de alguns insetos desta espécie e constatou ser verídico o fato.

César tinha vocação pras ciências do mundo natural, tipo biologias ou astronomias ou, ainda, veterinária. Mas ele nunca soube disso, pois era pequeno. Nessa época em que surgiam as dúvidas quanto aos seres, ele era apenas um pirralho com seus quatro ou cinco anos - e os catarros a escorrer pelo nariz. Era de praxe, todos os dias, sair pelo jardim que havia em frente a casa para captar algum besouro, alguma minhoca - algum vivente indefeso e distraído - para lhes pregar torturas dos estudos da infância.

O menino da casa de número 879 - inscrição já apagada pelo tempo - queria ser rei. Escutara em algum lugar, certa vez, que ser rei era coisa boa. Poderia ser o rei do jardim, apesar de não saber exatamente o que era Ser. Já até construíra alguns castelos de terra e gravetos, como os que vira nas gravuras de um livro. César tinha nome de rei, embora não entendesse de reinado, república ou abstração política alguma. Era seu destino governar o mundo, de sua imaginação.

Como já se sabe, naquela tarde de setembro surgiram novas indagações na mente do rei, que procurou prontamente de esclarecê-las. Foi então buscar alguns equipamentos necessários a sua pesquisa – nada de muito sofisticado, somente alguns apetrechos que se encontra em qualquer quintal. Tratou de captar as espécies a serem avaliadas e as levou pra debaixo da mangueira que começava a florir. Lá, decepou metade dos bichos e liquidou o restante. Foi nesse dia que ele soube das lagartas que se disfarçam com asas pra poderem voar. Era incrível como conseguiam aquela façanha. Maravilhado, César acreditou ter feito a maior descoberta de sua vida – mas ainda persistiam outras dúvidas. Uma delas ele não perguntou a ninguém: era possível ter asas - voar? Essa indagação foi pedaço pergunta e pedaço resposta ao Rei...

O atrevido e a virgem [no Paraíso]


...E eis que o moço desconhecido chegou para Judite, sentada ali no banquinho diante da porta de casa [em sua insignificância] e perguntou sem amarras:

- Você ainda é virgem, dona?

Quanto descaramento! Pensou a moça, com seus trinta e dois anos e a virgindade emprenhada nos órgãos de reprodução [e na mente].

- Como você se atreve?

Foi a única coisa que Judite conseguiu falar, avermelhada que estava em sua castidade de moça do interior. Mas o rapaz não se conteve.

- Alguém já conheceu sua virgindade?

Ele queria saber a verdade, pois acreditava que não existiam mais mulheres virgens no mundo. Loucura da cabeça daquele pivete, que tinha só seus quatorze anos e se achava esperto demais. É que ele, na noite anterior, sonhara que tinha uma missão: casar-se com a última virgem da Terra. Mas, quando contou isso para o melhor amigo, ouviu este dizer:

- Besteira, isso não existe mais? Nem aqui nem na China...

Mas, e se fosse realmente um fato a se consumar? E se ele tivesse uma importante missão a cumprir, de desvirginar a última pura do paraíso? Resolveu sair à procura de alguém. Qualquer pessoa que [de cara] parecesse virgem. Foi aí, alguns minutos após colocar os pés na rua, que o pivete viu aquela moça solitária [com jeito de quem nunca deu] sentada na porta da casa e resolveu perguntar. Afinal, não era nenhuma ofensa, ainda mais porque ele estava cumprindo uma missão. As pessoas precisam entender isso!

- Isso é uma ofensa, seu pirralho!

Respondeu. Com o rosto mais vermelho ainda. Essa foi a segunda e última resposta de Judite, que sentiu seu corpo arrepiar-se todo e uma sensação estranha percorrer suas pernas e entrar pela espinha dorsal. Como um desconhecido se achega assim e vai logo tocando em assuntos que são de intimidade? Pegou seu banquinho e entrou para a casa, fechando o portão em seguida. Nem sequer ouviu as últimas palavras do garoto, que tentava explicar os motivos de suas perguntas.

- É porque eu tenho que encontrar...

O menino atrevido viu que poderia estar ali sua virgem. Porém, achava realmente que aquilo era uma loucura. Apesar de não saber que não é normal uma pessoa sair perguntando pras outras sobre suas relações sexuais ou acerca da inexistência delas. Resolveu então voltar pra casa e refletir mais um pouco a respeito da missão. Talvez fosse apenas uma loucura. Afinal, ele tinha estado meio confuso nos últimos dias, pensando em coisas que não se justificam. O menino estava ficando louco [e deixou louca a última virgem do paraíso].

In-san-idade


Hoje eu não estava com nenhuma história bonita pra contar, sabe? Mas senti aquela vontade incontrolável de escrever qualquer coisa, ainda que fossem asneiras. Então, passei por aqui para dizer que, hoje, não consigo dizer coisas belas. “Isso é injusto!” Você pode dizer. Afinal, o mundo é tão lindo. Olhe as flores, a natureza, a vida...

Pois bem, isso é uma questão de ponto de vista. O mundo é o que você sente, o que você vive, o que você faz. Hoje eu estou (i) racional demais [ou não] pra abrir minha vida assim e dizer das coisas que eu fiz.

“Eu não fiz nada”, poderia falar apenas isso. Mas EU fiz sim! E, “é feio mentir”. Ensinou-me certa vez uma alma bondosa. Então eu conto as coisas que eu cometi e que não são bonitas: hoje eu arrotei perto de alguém e pedi silenciosamente, pra eu mesmo, que outra pessoa não se sentasse ao meu lado. Hoje eu quis bater na cara de muita gente, quis socar o teu estômago e sangrar teus olhos só pelo prazer de te ver sofrer.

Estou meio violento, entende? Até pisei em uma formiga, pra vê-la espernear enquanto perdia suas forças. Mas antes disso, eu tomei toda a carga de folhas que ela levava nas costas, apenas por que queria deixá-la desorientada. Isso me aliviou, já que não posso te bater e nem te fazer sofrer. Meu Deus! Acho que estou ficando um pouco violento [demais – ou seria apenas uma questão de ponto de vista?]...

Solitária


Consigo ainda ouvir o leve barulho dos teus pés ao subir a escada – devagar - para não me acordar. Você não sabia, mas eu sempre estava acordada a esperar por teu beijo silencioso de boa noite. Talvez nunca saiba, se não ler este meu diário, que eu respondia bem baixinho, “boa noite”. Você vivia muito cansado por causa dos afazeres do trabalho e não percebia, mas eu esperava, com meus desejos de mulher, por algum carinho a mais, além do beijo de boa noite.

Hoje resolvi escrever isso, pois sei que, pela primeira vez nesses últimos 12 anos, você não vai voltar, não vai subir as escadas com passos leves e nem vai me beijar antes de dormir. Aqui no meu canto de esposa solitária, tento recompor os pedaços que ficaram de nossas lembranças. Também procuro uma razão para o fim dessa história, que sonhei um dia terminar com um “feliz para sempre”. Nunca soube que contos de fada não acabam na última página. Quem sabe tenhamos mais um momento de recompor esses passos. Por enquanto, ficarei aqui a esperar, até que a noite passe. Amanhã pode ser um dia diferente. Será (?)...

Tempo


O ventilador está marcando o tempo,
É hora de ir,
Deixe se levar pelo vento,
Pro lugar que te faz sentir,
Qualquer emoção, outra canção...

Os espaços passam mais depressa,
E já não dá mais pra voltar,
Vou quebrar essa nuvem espessa,
Mas, por favor, alguém desligue o ventilador,
Que este instante é tão raro.

Vamos cronometrar cada segundo,
Quem sabe até escapar pela estrada,
Você também quer fugir do mundo,
Eu encontrei uma escada,
Acompanhe-me, que eu te levo pro futuro...

Dúvida (2)

Você sabe de onde vêm as nuvens?
E o sol, para onde vai depois da tarde?
E o amor, pra onde vai depois da dor?
E você, pra onde foi depois do amor?

Respostas

Nada precisa ser tão coerente,
Ninguém tem que dizer sempre os mesmos versos,
Nenhum sentimento há de permanecer,
O lugar-comum é a saudade.

Sinestesia


As cores se misturaram em um crepúsculo sem fim. Os sons se tornaram verdes e azuis diante de meus ouvidos. Pude ver tua esperança na minha boca, com aquele beijo doce-claro na hora de dizer adeus. O eclipse fez brilhar nossos olhos e ouvimos os sinos anunciarem que eram vermelhos os sonhos. Alguém vai dizer que somos loucos, de pedra (na mão).

É cedo. Poderemos correr ainda mais um instante pelo paraíso e ver tudo de outra cor. O êxtase não passou. Venha, meu bem, que é tempo de amar. Ah! O mar, a serra, o sol - pintados com o vento da noite. Diga algo que seja cor, que seja luz, que soe alegre em meus toques (ou acordes). Não vamos deixar desafinar este momento.

Re-cor-d(a)ção


Hoje estava tudo tão diferente. Talvez seja culpa da chuva, mas acredito mesmo que foi por sua causa que o meu mundo amanheceu assim. Sonhei contigo mais uma vez. Foi involuntário, acredite. Pois, se dependesse de minhas vontades conscientes, nossas lembranças já teriam sido colocadas em um baú, para serem recuperadas em um futuro distante, apenas como recordação. Como explica Freud, em nossos sonhos realizamos coisas impossíveis.

Em meu sonho eu te encontrei, pude te abraçar mais uma vez e até disse que te amo. Te amo! Frase complicada de se pronunciar nos momentos certos e da maneira adequada. Isso é possível? Não importa agora. O que quero mesmo é te dizer que esta noite eu sonhei, e vi teus olhos brilharem. E senti meu coração acelerar. E tive uma emoção muito grande. Como se tudo ainda fosse real, você me entende?

Eu só queria que tudo ainda fosse real. Para não ter que chorar de saudade quando acordar sozinho, com o barulho da chuva na janela. Tenho que confessar que tentei te esquecer. Beijei tantas outras bocas, olhei pra outros olhos e até pensei que amaria, sim, qualquer uma daquelas pessoas. Mas, no outro dia sempre me pego a pensar que poderia ter sido você ao meu lado. Eu queria te levar em tua casa e esperar você entrar antes de partir. É, eu queria fazer muitas coisas felizes junto com você, porém agora já acordei e nada é como antes. Tenho que viver...

O Caso da Sorte


Camila atravessou a rua rapidamente. O sinal estava fechado e ela corria para não ser atingida por algum veículo em alta velocidade. Eram oito horas e doze minutos da manhã de uma segunda-feira e sua sorte, como dizia no horóscopo que acabara de ler no jornal, não era muito boa. A conjunção de lua e saturno, ou de qualquer outro planeta - pois disso ela não entendia patativa alguma - determinava que seu dia seria de confusões.

Camila acordara às 6h40 da manhã nessa segunda, somente quarenta minutos de atraso. “Isso não é muito tempo!” Pensou consigo mesma enquanto corria dentro do banheiro para se pentear e escovar os dentes simultaneamente. Faltava pouco mais de uma hora para o seu horário de serviço. E seriam bons quilômetros de congestionamentos de sua casa ao centro da cidade, onde trabalhava.

Camila perdeu o ônibus das 7h, por poucos minutos. Quando chegou ao ponto, o veículo acabara de sair. Bem que ela até correu, mas não o alcançou. “Tudo bem, em alguns instantes virá outro e outro e outro...” Enquanto isso o relógio continuava sua tarefa de colocá-la ainda mais ansiosa. O próximo coletivo demorou quase vinte minutos e veio lotado. Com um pouco de sufoco e muito desconforto, ela conseguiu chegar ao centro da cidade, por onde agora corria até o edifício de sua empresa.

Camila não percebeu a moto que vinha em sua direção, quando atravessou a rua. Não se machucou com gravidade no acidente. Fora atingida levemente e apenas caiu. Não prestou atenção nos palavrões que o motoqueiro lhe disse, apenas se levantou rapidamente e continuou a correr. Ainda tropeçou pelo menos umas três vezes pela calçada e trombou com outras tantas pessoas desconhecidas que lhe reclamavam sem resposta.

Camila chegou, finalmente, ao prédio em que trabalhava. Chamou pelo elevador. Entrou. Suava bastante por causa da corrida com obstáculos que praticara. Poderia muito bem ser uma esportista, se não tivesse escolhido estudar a advocacia, o direito e as leis. Parecia até Lei de Murphy, mas o seu dia não era dos melhores. 21 anos de idade, emprego de telemarketing para pagar a faculdade e toda essa confusão.

Camila não era muito de acreditar em esoterismo, mas naquela segunda-feira as coisas até que iam ao encontro da mensagem que lera. Pouco depois de entrar no elevador que a transportaria ao sétimo andar, a energia faltou. Não a energia dela, que já tinha praticado todos os esportes pela manhã. Era a energia que fazia a máquina funcionar mesmo. Pensou que não deveria ter levantado da cama. Maldito horóscopo. Se soubesse que seria demitida alguns minutos depois, talvez nem tivesse enfrentado tantas coisas pra chegar até ali. Camila é uma menina de sorte, o problema foi ter lido sua má sorte.

O sexto cesto (para uma crítica social)


Na feira, ele ficava sempre por baixo,
Esperava que alguém lhe comprasse.
Queria ir pra casa e ter um dono,
Mas não passava de um cesto.

Um sexto pode ser muita coisa,
Quando não se é simplesmente cesto.
Pois, sexto é maior que cinco,
Mas cesto já não tem mais utilidade.

Minha mãe, certa vez, comprou um cesto.
Meu pai brigou: “foi-se um sexto do nosso dinheiro”.
Essas coisas acontecem - sexto e cestos não se dão.
É por isso que ele, aquele cesto, sempre ficou ali.

Sua maldição era ser o sexto cesto que havia na feira.
Coitado, ninguém o comprava.
No fim do dia, já cansado, voltava pro monte dos cestos,
Aquele lugar imponente de onde poderia ver todo o mercado.

Descia do monte pra ficar embaixo novamente,
No seu devido lugar.
Cestos não têm direito à palavra,
Obedecem e se calam, em sua insignificância.

Ninguém sabe ainda,
Mas, um dia, esse cesto fará a revolução.
Pode até ser que se transforme em celebridade ou herói.
E se tornará o dono da feira.
(Porém, nunca mais será vendido e não terá uma casa, nem um dono).

Drama (pessimismo e realidades)


A moça olha pela janela,
Está ansiosa,
O amor deve chegar a qualquer momento,
Para lhe arrebatar o coração.

A moça senta no sofá,
Está cansada,
Talvez o amor ainda venha,
Para lhe arrematar em sensações.

A moça cochila,
Está sonolenta,
Já não sabe do amor,
Que lhe atormenta as percepções.

A moça chora,
Está desesperada,
O amor não voltará jamais,
Arrebentaram-lhe os sonhos - os dragões.

Pobre da moça que esperou,
Em todos os verbos - passivos,
Por qualquer sinal de amor,
Viverá de solidão (ou não).

Momento Abstrato


Paixão é algo que vem e passa, como as chuvas de verão. Imagino que isso não seja novidade pra ninguém. Não sei se o nosso caso deve ser avaliado como esse sentimento, ou seria um amor? Não importa nada disso agora, pois o que mais tem valor é o momento. Sabe de uma coisa? Não consigo parar de pensar nos teus olhinhos verdes a me olharem com esse ar de malícia e os teus lábios a sussurrarem “ainda é cedo, fica mais um pouco”...

Ainda é cedo é uma frase de grande significado. Principalmente no meu caso, que já sofri por não entender que ainda era muito cedo para amar. Ou será que nunca é cedo demais, as pessoas é que não estão totalmente prontas para o amor? Um estado digno de avaliação, talvez não poética. Mas falemos de nós, pois isso é o que importa nessa minha escrita. Nós que somos de Marte, Vênus, Plutão, Mercúrio... Nós que nos conhecemos pelo “acaso”, como acreditam alguns, ou pelos fatos, como creio eu.

Da saudade imediata, naquela sua necessidade de ir, ao retorno rápido, só para me ter mais perto. Do seu carinho e de seus toques leves, em contraste com a minha insegurança e rudez, ainda lembro e tenho risos. Rir também foi nossa arte, a arte do encanto, do encontro. Viver deveria ser sempre assim, sem preocupação com o que nos espera, para que os instantes pudessem ser sentidos no presente.

Lembra daquela manhã, quando ficamos a olhar pela janela o dia chegar de mansinho? Beleza que se expressa em cada ato, em cada fato, dessa nossa peça – história a ser contada em primeiro plano, para retratar os detalhes, a exemplo do seu cabelo molhado de suor a grudar no rosto, a escorrer entre meus dedos, num afagar sem fim. Também não posso esquecer - e por isso cito novamente - dos teus olhos verdes a me observarem, como se quisessem gravar na memória a minha imagem. Tudo tão intenso e cheio de vida. Mas não pensarei mais nisso, pois tenho que viver Agora.

P.S.: Beijo, me liga...

Breve Reflexão


“Nossas vidas são definidas por oportunidades, mesmo aquelas que perdemos.” Essa é apenas uma das muitas frases de efeito que povoam uma das mais belas produções cinematográficas contemporâneas (fotografia, roteiro etc...): “O Curioso Caso de Benjamin Button”, com direção de David Fincher, coloca na tela a poesia das palavras e trasmite uma emoção tamanha até mesmo nas mais simples cenas. Não falo aqui com a experiência de um crítico, pois não o sou, apenas como poeta. Também sou um pouco receoso aos excessos nestas colocações textuais para emocionar, mas neste caso, o filme consegue trasmitir - muito mais pela composição do que pelas frases - uma carga emotiva enorme. As palavras de Benjamim e demais personagens são enfeitadas por imagens que fazem do filme um excelente meio de reflexão. Ao se colocar “Você nunca sabe o que está reservado para você”, o autor fala diretamente ao telespectador, que dificilmente sai inalterado da sala de cinema. Só para completar minha rápida reflexão, “eu estava pensando em como nada dura, e como isso é Lastimável.” Mas, também não podemos lamentar, afinal “ninguém é perfeito para sempre.”

Tempo de Saudade


No tempo, já se passaram três anos desde que Antônio partiu daquele amor. Foi numa noite do fim de junho, quando o frio ainda fazia tremer os lábios e o céu era estrelado. Mas, no entardecer do dia 29 não foi o vento gelado que assoviava pelas árvores o motivo de seu soluço. No peito, algo lhe dizia que não seriam iguais, nunca mais, os olhares dele e de Raquel. Aquele entrecruzar que bastava para dizer tudo o que sentiam. Partir era seu destino. Partir pra longe, onde o mundo gira mais rápido e o sol não se despede à tarde.

Na área em frente a casa, sentado em seu banquinho de madeira, ele observava o horizonte, como se fosse um leve abandonar da natureza. No cajueiro do quintal alguns pássaros insistiam numa sinfonia desafinada. Tudo inspirava saudade, mesmo antes do adeus. Alguns minutos depois Raquel apareceria, meio tímida, como se quisesse fazer seu último pedido. Não o faria. Ficaram os dois sentados no banquinho a olhar pro alto, a planejar um futuro distante, quando se encontrariam de novo.

Antônio, com seus 17 anos, precisava ir. A capital lhe esperava para os estudos e a formação. Raquel, em sua pureza de 15 anos, também queria seguir estrada afora, acompanhar seu amado. Mas não era tão simples assim. Ela ficaria, com lágrimas nos olhos, a esperar sempre um sinal de regresso. Ele, ainda choraria em seu novo quarto muitas tristezas. O amor muda de cor com os verões.

Na noite do dia 29, Raquel o acompanhou até a rodoviária. Levou uma bolsa, como se nela depositasse todo o seu desejo de não passar o tempo. Caminharam devagar, passos contados na areia da calçada. Depois, um pouco ainda de espera no terminal, onde o ônibus finalmente os separaria. Pelo vidro da janela ele conseguiu ver Raquel, menina formosa de cabelos soltos e olhar ingênuo. Deu um aperto no peito e uma vontade de chorar. Antônio não chorava em público. Sempre que suas lágrimas o sacudiam ele se escondia em algum canto. Mas, naquele momento, não teve como fugir. Chorou em silêncio e deixou que se umedecesse seu rosto, pra lembrar que um dia amou demais.

A madrugada chegou ainda na estrada. Antônio não dormira nada. Tinha ficado a olhar pelo caminho cada árvore, cada estrela perdida naquela escuridão. Foram 500 quilômetros até o sol aparecer por trás das montanhas. O mundo parecia diferente por aquela região. Era mais triste. Ou seria sua tristeza que a tudo inundava? Não sabia ao certo, mas algo era diferente. Pouco mais de 100 quilômetros e ele estaria finalmente em sua nova casa. Lugar onde passaria os próximos dias, meses, anos. A lembrança de Raquel o acompanharia. Porém, novos verões viriam lhe roubar a cor dos sonhos e fazer perder todo o encanto. Ainda restaria, na saudade, uma vontade de amar de um jeito puro. Apenas na saudade. Pois, breve Antônio se formaria homem. Raquel se formaria mulher. Eles não sabem, mas a vida, o tempo e a distância fazem sim os corações se partirem e se juntarem em outros pedaços. Um dia saberão...